HISTÓRIA DO PALÁCIO DO GRILO

A história do Palácio do Grilo é em si uma parte integrante da história de uma Lisboa oitocentista marcada por profundas transformações sociais. O Palácio do Grilo, classificado como MIP (Monumento de Interesse Público) desde 2011 e também conhecido como Palácio dos Duques de Lafões, situa-se no gaveto da Rua do Grilo com a Calçada dos Duques de Lafões, elevando-se na freguesia do Beato em plena cidade de Lisboa. A magnífica estrutura constitui um complexo arquitetônico do século XVIII e predominantemente neoclássico pontuado por expressões e motivos barrocos. A construção do edifício está intimamente relacionada a algumas contingências históricas que testemunharam o extenso processo de ereção do Palácio.

História do Palácio do Grilo –

Introdução

O Palácio do Grilo é definido sobre uma estrutura palaciana pré-existente localizada na Fazenda Grilo que anteriormente pertencia a D. António de Mascarenhas. Esta fazenda foi constituída por uma propriedade de terra muito grande que subiu a encosta subida pronunciada, conhecida hoje como Duques de Lafões Calçada.

Conforme relatado por José Sarmento de Matos e Jorge Ferreira Paulo no livro Caminhos do Oriente – Guia Histórico (Lisboa, Livros Horizonte, 1999), D. António de Mascarenhas ofereceu a sua filha mais velha como dote a D. Henrique de Sousa Tavares, 1º Marquês de Arronches (Português: 1.º Marquês de Arronches). 

Mais tarde, a bisneta e única herdeira deste casal casou com D. Miguel de Bragança, filho natural do Rei D. Pedro II e, portanto, meio-irmão de D. João V, herdeiro do trono e que altamente considerava seu irmão D. Miguel.

Quando o primeiro filho de D. Miguel de Bragança e D. Luísa Casimira de Sousa Nassau e Ligne nasceu, de seu nome D. Pedro Henrique de Bragança, o rei D. João V dotou seu sobrinho com o título de 1º Duque de Lafões no dia do seu batismo.

Assim aconteceu a herança da Fazenda do Grilo pelos Duques de Lafões, incluída entre o imenso património dentro do legado da Casa de Arronches.

Após o grande terramoto de Lisboa, a 1 de Novembro de 1755, D. Pedro de Bragança, encontrou-se inesperadamente sem alojamento na capital, um efeito posterior da destruição completa que ruiu Lisboa da sua residência até ao Convento do Carmo.

Seria de esperar que o Duque se recolhesse na sua Vila do Grilo, mas o fato é que D. Pedro foi morar temporariamente em instalações de alojamento concedidas pelo rei, incluindo o Palácio de Alcântara. Presumivelmente, isto se deveu ao fato de o Palácio do Grilo estar em (re) construção no momento.

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O Início

D. Pedro, além de ser um príncipe por direito de sangue e também um parente próximo do rei, desempenhou um papel bastante importante em relação à hierarquia tradicional da administração portuguesa na época, como ele estava no comando da função da Autoridade do Reino em Justiça. Sendo uma figura tão conceituada, D. Pedro foi, sem dúvida, um personagem proeminente dentro da vanguarda do século XVIII em Portugal. Seu poder e emergência como uma personalidade líder bem estabelecida na época têm sido constantemente fortalecidos ao longo dos anos. Uma evidência desta circunstância seria notar que o Duque foi a última pessoa a ser demitido pelo Marquês de Pombal (Português: Marquês de Pombal) em sua corrida para a exclusividade no poder do reino como primeiro-ministro.

Não obstante, em 1760, D. Pedro é desterrado da Corte do rei D. José I, recolhendo-se à sua Quinta da Granja de Alpriate. Este evento inesperado é atribuído a D. Pedro ter se recusado a iluminar sua residência por ocasião do casamento entre o Infante D. Pedro III e a filha mais velha do rei e futura rainha, D. Maria I, princesa do Brasil. Este episódio, por sua vez, resultou do fato de que o duque D. Pedro de Bragança também foi um dos dois únicos pretendentes à mão da princesa, e, conseqüentemente, também ao trono português como rei consorte.

É importante entender que esta ocorrência em particular aconteceu alguns anos depois de se encontrar em uma disputa com seu tio, o rei D. João V, que se originou devido ao relacionamento romântico de D. Pedro com Luísa Clara de Portugal.

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Um Duelo de Tios

Efetivamente, anos mais tarde, em 1760, apenas o Infante D. Pedro III, como irmão mais novo do rei e, consequentemente, tio de D. Maria I, e o Duque D. Pedro Henriques de Bragança, como figura proeminente na Corte Portuguesa do século XVIII, também tio de D. Maria I – como o primeiro filho de D. Miguel de Bragança, e, portanto, descendente do rei. D. Pedro II, ambos eram legítimos (e os únicos) candidatos a serem considerados na sucessão ao título de Rei de Portugal. O Duque acabou perdendo a corrida para o Infante, certamente por defeito do bastardismo de seu pai, mas também por ser notoriamente um personagem mais forte do que seu oponente, capaz de perturbar os futuros projetos do Marquês de Pombal, dado o elevado social e status político, bem como sua riqueza.

Foi, portanto, surpreendentemente evidente que o Duque teve que lidar diligentemente com a imagem da Casa de Lafões. E, naquela época, tal façanha sempre significou um investimento sólido em calcário e argamassa. Além disso, seu adversário mais forte para a mão da futura rainha foi poupando nenhum esforço para transformar o seu Queluz Vila em uma casa de campo apropriada para alguém que quase garantiu para si mesmo, mais cedo ou mais tarde, uma coroa real.

Nesse sentido, é possível entender a abordagem peculiar do 1º Duque de Lafões ao dirigir a construção do Palácio do Grilo, uma vez que este último foi guiado por linhas centrais que encontram a nobreza de seu caráter ressoando na história que marca  a vida de Henrique D. Pedro.

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História nas Paredes

D. Pedro, equipado com seu imenso portfólio de conhecimento sartómico, e igualmente se movendo perfeitamente entre seus pares – a quem dependia funcionalmente dada a sua condição de arquitetos – esforçou-se incansavelmente por anos na tentativa de encontrar um eco único que poderia ressoam com a natureza sem precedentes desta composição e de alguma forma espelham a maneira pela qual ele sentiu e entendeu este projeto. 

Na verdade, o Duque estava profundamente empenhado em transmitir algum tipo de reflexo de um reino onírica que poderia imprimir na estrutura suntuosa a marca de um destino destinado à coroa real, mas que acabou por nunca ser cumprida.

Devido à morte prematura de D. Pedro em 1761, não foi possível para o Duque perceber a expressão absoluta de seu desejo em relação ao projeto arquitetônico para o Palácio. A tarefa de continuar com a edificação do edifício seria então delegada ao notório irmão mais novo do Duque: D. João Carlos de Bragança2º Duque de Lafões. 

No entanto, D. João concede à construção uma visão com um novo gênero de estilo distinguível, embora ainda seja verdadeira para a tradição neoclássica e inspirações barrocas, que revelam a fusão de uma elegância muito particular, revelando simultaneamente e sutil, e que também exibe uma natureza inerentemente singular núcleo.

Entende-se que o palácio já era habitável no momento do retorno de D. João de Bragança, como as notas históricas indicam que o Salão da Academia (Português: Sala da Academia) era o lugar para reuniões, que, por sua vez, foram na gênese do Academia Real de Ciências de Lisboa. 

No entanto, presume-se que somente a observância da 3ª Duquesa de Lafõesjá na primeira metade do século XIX,que a grande Sala Oculus(Português: Sala dos Óculos)seria finalizada.

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Background  

I

Independentemente de ser quase impossível determinar a data exata da construção relativa à estrutura paleaiana pré-existente, através da leitura atenta da planta inicial, é certamente possível reconhecer o edifício que já existia em o tempo do início das obras.

A estrutura foi organizada em forma de L, tendo seu maior composto orientado na direção Norte-Sul, sendo, portanto, vertical para o Rio Tejo, enquanto o pequeno complexo da estrutura estava voltado para o rio, bem como a avenida pública. Na parte interior da estrutura L, um pátio costumava existir, contido por outras construções mais modestas. O pátio foi localizado no nível superior da rua e poderia ser acessado através de uma rampa que passou o composto mais curto da estrutura em forma de L.

II

A parte o palácio, o corpo maior do composto em forma de L é, até hoje, sensível ao complexo já existente formado pela ala ocidental.

Foi o seu caráter antigo distintivo que certamente levou José Augusto França a abordar as fachadas de estilo do século XVI (A Arte em Portugal no Século XIX, vol. 1, pág. 167). Da estrutura anterior, a grande seção principal foi mantida, incluindo a divisão interna no nível do piso nobre.

A seção principal em pé na avenida foi duplicada formando uma fachada de 11 aberturas divididas em 2 níveis: nível do solo e piso nobre. Da mesma forma, o pátio no nível superior com dimensões bastante aproximadas também foi mantido no projeto de reconstrução, sendo necessárias apenas pequenas correções para manter a simetria.

No entanto, a rampa que uma vez deu acesso da rua exterior viria a desaparecer. No nível do solo, saltando da fachada um grande salão foi sugerido, a partir do qual uma escada simplificada viria a liderar o caminho para um grande salão de baile aberto, elevando-se que o mesmo pátio.

III

No lado leste, outra seção principal simetricamente disposta à já existente foi proposta. Aproveitando a inclinação de forma magistral, este novo edifício proporcionou acesso diretamente ao pátio através de uma rampa hoje conhecida como Calçada duque de Lafões.

Finalmente, ao norte do pátio central, estava outra nova seção principal, notavelmente complexa em sua articulação. Na parte de trás, sobre os jardins exibidos em cascata através da colina, um imenso salão de dimensões incomuns em Portugal abriu, exalando-se expressivamente na economia do todo. No mesmo nível e conectado a este salão, foi exibido outra partição de amplo espaço, presumivelmente destinado a se tornar uma biblioteca considerando as marcas delimitadas na planta.

Ao simplesmente observar o plano inicial para o projeto de renovação do edifício é capaz de compreender que o estilo deste palácio tem pouco ou nada a ver com a tradição aristocrática portuguesa.

IV

Ao contrário da tradição dos palácios lisboetas, o projecto do Grilo compõe-se de uma complexidade erudita, característico de quem estava habituado a manusear a arquitectura como um teorizável exercício de estilo e a quem as grandes construções palacianas se iam estendendo pela Europa.

Este carácter inédito é bem acentuado pela confrontação dos alçados. É uma arquitectura em extremo erudita e bem familiarizada com um certo ecletismo estético na altura dominante no continente europeu, onde a revalorização dos valores clássicos em que o barroco assentava era temperada por pontuais arrebiques formais, que conferem elegância ao resultado final.

V

Temos assim um edifício que se adapta brilhantemente à topografia, subindo a encosta  com exemplar aproveitamento dessas alterações de ritmo. O seu autor joga primorosamente com as diferenças de gosto definindo várias fachadas sucessivas – todas diferentes – mas cada uma afirmando uma forte unidade estética em diálogo ambiguo entre si.

Respira-se assim um manifesto cenografismo que se vai desvendando à medida que se percorre o complexo, percebendo o requinte subtil que se impõe como programa do conjunto.

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Características

O Palácio Lafões ocupa uma área relativamente grande, limitada a Sul pela Rua do Grilo, a Nascente pela Calçada do Duque de Lafões, a Norte pelo jardim, e a Poente pelas instalações da Manutenção Militar, que foram antigo jardim e hortas. Apresenta em planta um aspecto aparentemente confuso, mas o corpo primitivo, sobre a antiga estrada, a Poente, é nitidamente regular.

De facto, é perceptível que até um determinado momento se procurou seguir a edificação do complexo com grande fidelidade ao projecto original. No entanto, é na passagem para o século XIX que se abandona a ideia de completar o palácio cujo recinto começa a ser subdividido tendo em vista a sua rentabilização. Com efeito, na última década do século XIX entre 1892 e 1893 o corpo da frente do palácio tinha sido adaptado e transformado em prédio de rendimento.

palácio, e que aparentemente continua o soco do palácio ainda que a linguagem arquitectónica seja bastante diferente, contemplando um carácter muito menos nobre.

A cobertura em terraço deste corpo evidencia uma forte presença na zona e é visível a partir dos pisos elevados de todos os edifícios próximos. Durante o século XX, este corpo baixo e o que se oculta por trás de parte do soco antigo de pedra foram objecto de diversos projectos de adaptação cinema, agências bancárias, instalações de bombeiros, comércios diversos, etc…

Este corpo térreo, construído no início do século XX e objecto de diversas alterações, integra estruturas de abobadilhas apoiadas sobre a estrutura metálica e obedece a uma métrica regular cuja estrutura principal é constituída por paredes estruturais de alvenaria e pilares de ferro fundido suportando vigas metálicas. (Monumentos, 2016)

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Descrição

GERAL:

Arquitectura residencial, pombalina neoclássica. Palácio urbano de planta quadrangular irregular, composta, no piso térreo em U e, nos pisos superiores por dois corpos rectangulares formando um L tendo o seu corpo maior disposto no sentido Norte-Sul e no interior deste L um pátio a nível superior ao da rua, fechado por construções modestas, e possuindo jardim em cota sobrelevada na fachada posterior.

Fachada principal inacabada. Capela palaciana, de planta rectangular com arco triunfal de cantaria, dividindo a meio o espaço; retábulo da segunda metade do século XVIII, de talha dourada e policromada com marmoreados.

Salas e pequenas divisões ricamente decoradas ostentando lambris de azulejos e pintura de estilo rococó e neoclássica ornamental de temática alegórica nos tectos. Antiga quinta de veraneio com projecto de edifício palaciano de grandes dimensões, pátio, jardins e alameda caso tivesse sido completado; a sua actual planta, apenas corresponde a metade do projecto desenhado. Das quatro fachadas apenas a posterior, a Norte, se encontra concluída.

Apesar de inacabado o seu exterior não sofreu alterações de fundo em relação ao projecto inicial (sendo possível a sua conclusão sem grandes alterações ou pastiches). O projecto inicial desenvolvia-se em três plataformas que se interligam sobre um terreno em declive. Sobre a rua (voltada ao rio) fachada de dois pisos de características neoclássicas. No plano superior, pátio com fachada a Norte mais elaborada.

FACHADA NORTE:

Em terreno mais elevado, a fachada Norte voltada sobre os jardins com elementos mais barrocos. São notáveis os seus interiores, quer pela sua decoração, nomeadamente pelas pinturas murais de autoria de Cirilo Wolkmar Machado, diversas portadas pintadas com grinaldas de flores e um conjunto de azulejaria do século XVIII e XIX, bem como o seu recheio artístico e mobiliário com algumas peças históricas ao nível da pintura de retrato do século XVIII e XIX. 

A norte da fachada posterior estende-se em rampa ascendente um jardim formal de planta rectangular constituído por três patamares, sendo o primeiro junto à fachada caracterizando-se por talões retangulares de bucho com corredor central que termina num tanque com forma de concha cujo motivo central se traduz num grupo escultórico em pedra representando jovens tritões sob concha rematado com Ganimedes e a Águia Júpiter; o segundo patamar repete o mesmo esquema terminando num terceiro com placa central de cimento (onde outrora existira um tanque central); de ambos os lados correm paralelos caminhos largos, cobertos em parte, com latada.

Na planta levantada por Filipe Folque, pode-se observar a verdadeira dimensão do jardim original que se estendia muito para além do caminho-de-ferro que cortara a propriedade a meio. Do lado da atual Manutenção Militar estendia-se um outro jardim formal de grande dimensão com hortas e canteiros e um enorme terreiro circular destruído pela passagem da linha-férrea.

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Complexo

Planta composta em L, volumes articulados e coberturas diferenciadas. Distinguindo-se a S. um único corpo, que se apresenta organizado em 3 andares. Ao nível do piso térreo, revestido com placagem de cantaria, distinguem-se as 3 portas das primitivas cocheiras, enquanto no andar nobre se reconhecem 4 janelas de sacada com varões de nós e encimadas por cornijas salientes e no último andar 4 janelas de peito de emolduramento simples. 

Um segundo corpo desenvolve-se a Este, com um só piso, apresenta-se guarnecido superiormente por balaustrada. No alçado posterior Norte, virado ao jardim e rematado por balaustrada, distingue-se um corpo central – animado por 3 portas em arco de volta redonda encimadas por igual número de óculos envidraçados e decorados por grinaldas – e 2 corpos laterais, separados por pilastras, cada um com uma porta decorada com grinalda na sobreverga encimada por janela de peitoril. 

Na continuação para Oeste e fazendo ângulo recto recuado fachada de quatro vãos de cujo patim desce uma pequena escadaria para uma faixa de jardim. O acesso às fachadas sul e nascente faz-se através de um portão, de chapa de ferro, colocado numa meia rotunda que abre sobre a Calçada do Duque de Lafões; 

Ao fundo, a fachada voltada a nascente apresenta cinco portas com cinco janelas superiores rectangular com caixilhos de madeira pintada e no telhado quatro águas furtadas; na fachada voltada a sul apresenta sete portas, no piso térreo, sendo a central de acesso à escadaria.

Nos pisos superiores, sete janelas e, no telhado, sete águas furtadas; para nascente, volume correspondendo a ala interrompida, com quatro janelas superiores e um arco de passagem para uma rampa de ligação ao jardim; no terraço fronteiro diversas clarabóias dos estabelecimentos do piso inferior e alguns plintos de pedra com vasos.

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Edifícios

O acesso ao INTERIOR faz-se pela escadaria de dezoito lanços em pedra e revestida por lambrins de azulejos, do final do século XVII, em azul e branco representando cenas galantes e mitológicas (Diana e Actião); no patamar superior, três portas, com panos de armar em veludo carmim com brasões, encimadas com painéis de azulejos, em azul e branco, do século XIX, recortados com os brasões heráldicos das Casas de Lafões, Cadaval e Marialva;

SALA DE JANTAR:

e nela, o chão de tijoleira, primitivo; um rodapé de azulejos setecentistas; o tecto e as paredes lisas ( após os restauros); retratos de personalidades de família e um de Isabel de Farnese

SALA DE ESTAR:

restaurada em meados do século XX, com pilastras caneladas de ordem dórica, embebidas nas paredes; os vãos das paredes forradas de seda; um grande vaso de mármore italiano num nicho ao topo; retratos de D. Pedro II e D. João V. Na ala primitiva, Poente, a um plano mais inferior, as salas, acusando a passagem do tempo, têm sido mais poupadas a restauros: 

ÁTRIO:

que abre do fundo do pátio, e nela o tecto, de estuque (restaurado) liso, com ovaqs lisos; a guarnição superior das paredes, com pinturas de grinaldas suspensas; silhares de azulejos polícromos, D. Maria I, no tipo dos da basílica da Estrela; chão de tijoleira;

SALA DOS ÓCULOS:

acessível através da porta central, de planta quadrada (originalmente rectangular) com dez vãos de porta sendo que três, a Norte, abrem sobre o jardim, três a Sul, de acesso às dependências e os dois pares no eixo Este-Oeste abrem para as duas salas que no século XIX foram criadas; sob os vãos óculos ovais verticais com caixilharia raiada em teia-de-aranha; a sala apresenta pavimento de madeira e as paredes estucadas e pintadas com frisos em tons de amarelo e verde.

A sala contígua, a Este, comunica com um átrio, cujo pavimento em tijoleira apresenta um curioso desenho de cinta e losangos em azulejo marmoreado a rosa, dá acesso à zona residencial superior e ao jardim; da sala contígua a Oeste, acede-se por escadaria descendente ao piso situado a nível do pátio central onde se distribuem salas pertencentes ao edifício original; passando o átrio da escadaria, encontra-se sala de passagem de acesso lateral à capela. 

CAPELA:

de planta rectangular com arco triunfal de cantaria, dividindo a meio o espaço; no piso térreo quatro portas (duas na capela-mor, duas na nave), em talha dourada, com portadas de madeira recortada, com verga superior ostentando relevo representando a coroa ducal cruzada por um ramo de carvalho e uma palma; no piso superior varandim em forma de ferradura, com balaustrada em ferro forjado correndo a toda a volta do espaço, suportado por mísulas.

Na capela-mor retábulo da segunda metade do século XVIII, de talha dourada e policromada com marmoreados imitando malaquite, docel sobre o nicho do trono eucarístico; sobe a banquete de altar sacrário em talha dourada. 

SALA DO DUQUE:

de planta rectangular com pavimento de madeira e porta decorada com pintura perspectivada; o tecto apresenta pinturas ornamentais de festões, grinaldas e, sobre as portas de comunicação, frontões com putti. 

SALA DA ACADEMIA:

de planta rectangular com oito vãos e pavimento de madeira apresenta paredes e tecto de estuque pintado com decoração policroma, de final do século XVIII, com fundos brancos e profusamente preenchidos de flores, putti, pássaros e festões com instrumentos musicais; no tecto, representa-se, num grande oval central, uma figura alada feminina com atributos ligados à ciência e às artes e nas paredes do lado Oeste, entre vãos, duas pinturas em nicho representando alegorias às artes.

Na parede oposta uma grande pintura mural, com cercadura em arco, representando uma alegoria à música com figura feminina tocando harpa e rodeada de diversas crianças tocando outros instrumentos musicais ou representando tragédias, numa paisagem com templete e estátua de Mercúrio. 

SALA CHINESA:

planta quadrada com pavimento de madeira apresenta cinco vãos e paredes em estuque com pinturas de estilo neoclássico representando camafeus, figuras femininas em cercaduras, grinaldas de flores e festões com aves e diversos objectos separadas por pilastas desenhadas; no fundo da sala, oposto à janela voltada ao jardim, espelho rectangular vertical emoldurado por pintura e ladeado por duas portas (uma delas convertida em armário) envidraçadas e rematadas por pintura com ovais. 

SALA DE VÉNUS:

planta rectangular com pavimento de madeira, seis vãos com portadas pintadas com flores, paredes de estuque pintado com delicada pintura ornamental, tecto com grande oval central com pintura rodeada de cercadura representando Vénus emergindo das águas e apoiada em dois tritões. A sala contígua apresenta guarnição superior das paredes com pinturas de grinaldas suspensas, silhares de azulejos policromos de estilo rococó e neoclássico de composição ornamental. 

A sul desta sala, situa-se a escadaria que dá acesso a zona residencial de quartos e instalações sanitárias, cujos quartos apresentando silhares de azulejos idênticos ao piso térreo. Numa sala de jantar, junto à escadaria, de planta quadrada observa-se lareira de pedra e os cantos cortados com armários com portadas em vidro dando à divisão uma forma oitavada com decoração de estilo neoclássica (redecorada em meados do século XX). 

ARENA:

de planta rectangular situa-se a Este da Sala dos Óculos, apresenta na fachada voltada a Norte, porta com verga de cantaria curva e a ladear duas janelas; o interior é amplo com algumas divisórias de arrecadação e tecto de vigas de madeira com telhado em telha tipo Marselha à vista; do lado nascente do picadeiro desce rampa que, passando o passadiço, liga ao pátio central do imóvel.

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Atualmente

:

As estruturas de construção que integram o complexo arquitectónico atual do Palácio do Grilo são constituídas pelo somatório das intervenções efetuadas ao longo dos anos.

  1. O corpo palaciano ainda habitado pela família ou que fazia parte do projecto original (anterior à última década do século XIX);
  2. O prédio de rendimento composto por 12 frações independentes e loja com entrada pela Rua do Grilo;
  3. O edifício que usa o soco do palácio como fachada sobre a Rua do Grilo;
  4.  o edifício construído no início do século XX,  na continuidade do soco do palácio;
  5. As dependências diversas que foram construídas ao longo dos anos;

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Autoria do Projeto

Comumente atribuída a Eugénio dos Santos, existem dúvidas relativamente à autoria do capitão engenheiro com ofício de arquitecto – face ao grau de formação cosmopolita e erudita que estes desenhos pressupõem. José Sarmento de Matos e Jorge Ferreira Paulo levantam a hipótese de a autoria do projecto ser atribuída a Gian-Carlo Bibiena (Grilo, Palácio do in Dicionário da Arte Barroca em Portugal), o único arquitecto de formação então existente em Portugal bem como professor da Academia Clementina e que curiosamente faleceu no conturbado ano de 1760 para a família de Lafões.

Bibiena foi o arquitecto do rei, para quem desenhou o projecto inicial da Igreja da Memória, bem como a desaparecida Ópera do Tejo e a luxuosa Real Barraca da Ajuda. Além do eclestismo típico, professado na Academia de que foi discípulo e mestre, é o sentido cenográfico detectado no conjunto destes alçados que se revela como uma assinatura, naural em quem se criou no seio da mais célebre família de arquitectos cenógrafos da Europa do século XVIII.

Recentemente, Helder Carita (2015), vem relacionar José Manuel de Carvalho e Negreiros com o edifício tendo-o como “arquitecto de uma certa aristocracia Lisboeta”, devido aos seus projectos para o Palácio do Marquês do Louriçal e da Quinta do Marquês de Angeja.

História do Palácio do Grilo –

Cronologia

sec. XVIII – 1ªmetade

Séc. XVII, 1ª metade – a Quinta do Grilo pertencia a D. António Mascarenhas (c.1610-1654); meados – a Quinta do Grilo é vinculada e dada em dote a D. Mariana de Castro (1630-?) pelo casamento com Henrique de Sousa Tavares, 3º Conde de Miranda e 1º Marquês de Arronches (1626-1706); 

1715 – Luísa Casimira de Sousa Nassau e Ligne, 1ª duquesa de Lafões (1694-1729), filha de Mariana Luísa Francisca de Sousa Tavares Mascarenhas e Silva, 2ª marquesa de Arronches e Carlos José, príncipe de Ligne, casa com D. Miguel de Bragança (1669-1724), passando a quinta do Grilo para os duques de Lafões, onde já existia um palácio; 

sec. XVIII-2ª metade

1756 – início da edificação do palácio sobre parte pré-existente da quinta de veraneio (e incluida no novo projecto) por ordem de D. Pedro Henrique de Bragança e Ligne Sousa Tavares Mascarenhas da Silva, 1º Duque de Lafões (1718 – 1761); 

1760 – Expulsão da corte do 1º duque de Lafões o que implica a paragem da primeira campanha de obras no palácio; 

1761 – morte do 1º duque de Lafões; 

1779 – D. João Carlos de Bragança, 2º duque de Lafões (1719-1806), regressa a Portugal, continuando-se as obras no palácio de forma irregular; 

1779 – têm lugar no palácio as primeiras sessões da Academia Real das Ciências, da qual o 2º duque de Lafões foi um dos fundadores; 

1788 – tem lugar no palácio o casamento do 2º duque de Lafões com D. Henriqueta Maria Júlia de Lorena e Meneses, filha dos marqueses de Marialva; 

sec. XIX

1806 – morte do 2º Duque de Lafões no palácio do Grilo; 

1851 – falece no palácio a 3ª duquesa de Lafões D. Ana Maria José Carlota de Bragança e Ligne de Sousa Tavares Mascarenhas da Silva; 

1886 – sendo proprietário D. Caetano Segismundo de Bragança e Ligne de Sousa Tavares Mascarenhas da Silva, 4º duque de Lafões (1846 – 1927), tem início um processo de subdivisão da propriedade edificada e terrenos envolventes, para fins de arrendamento e exploração comercial e industrial; 

1892 – O 4º Duque de Lafões dá início a um projecto de subdivisão de salas do palácio; 

sec. XX-1ªmetade

1917 – início da actividade do cinema Cine Pátria, em parte do piso térreo do palácio e com acesso pelas portas nº 44 e 46 da R. do Grilo; 

1932 – instalação da Companhia de Bombeiros Voluntários do Beato – Olivais, em parte do piso térreo; 

1939 – campanha de obras de beneficiação, restaurando-se designadamente o tecto da denominada Sala dos Óculos; 

1946, – falecimento de D. Afonso de Bragança, 5º duque de Lafões e 8º marquês de Arronches, passando o palácio para a posse do primogénito dos seus 7 filhos, D. Lopo de Bragança (n. 1921); 

1950 – o palácio é residência permanente dos 6º duques de Lafões e da duquesa viúva do 5º duque, D. Alice de Macedo; 

sec. XX-2ª metade

1952 – alterações numa ala do palácio para transformação em apartamento privado de um dos proprietários; 

1966 – instalação de agência da Caixa Geral de Depósitos no nº48 da Rua do Grilo; 

1977 – o Museu da Cidade (CML) adquire à leiloeira “Soares & Mendonça”, por compra directa, um lote de desenhos (plantas e alçados), atribuídos a Eugénio dos Santos, alguns dos quais por ele assinados, entre esses projectos encontra-se um conjunto de Planos, Alçados ou Prospectos, e Cortes ou “Espacatos” respeitante à ampliação do Palácio dos Duques de Lafões, encomendados pelo 1.º Duque de Lafões, D. Pedro Henrique de Bragança;

1978 – início do processo de classificação pela DGPC; 

1985 – estudo de aproveitamento dos terrenos para construção de novos edifícios realizado pelo arquitecto António de Sousa Ribeiro; 

1991 – apresentação de nova proposta de construção de edifícios de rendimento apresentada pelo proprietário; 

sec. XXI

2007, 05 fevereiro – Despacho de abertura do processo de classificação pelo vereador da cultura da CMLisboa, para classificação como Interesse Municipal; 

2008, 17 agosto – proposta de abertura do processo de classificação de âmbito nacional, pela DRCLVTejo; 

2010, 19 Setembro – Despacho de abertura do processo de classificação pela sub-diretora do IGESPAR;

2011, 31 maio – parecer favorável relativo à classificação pelo Conselho Nacional de Cultura;

2011, 28 novembro – projecto de decisão relativo à classificação como Monumento de Interesse Público e fixação da respectiva Zona Especial de Protecção do edifício, publicado em Anúncio 17543/2011, DR, 2. série, n.º 228; 

2011, 06 dezembro – Declaração de retificação do número de polícia n.º 1879/2011, DR, 2.ª série, n.º 233.