Palácio do Grilo - Sobre

I

O Palácio do Grilo é um reino dedicado aos sonhos. Projetado no século XVIII por Dom Pedro, o primeiro duque de Lafões (1718-1761), oferece um território à imaginação no coração de Lisboa. A poucos metros do Tejo, é um caso ou uma nova dimensão por detrás dos seus muros e jardins. Os seus «quartos estranhos e surpreendentes», parecem ser os estágios de uma viagem fantástica, se não iniciática… É aqui que se dscobre um não-lugar onde tudo surpreende, anima, reflete… 

No Palácio do Grilo a mente concorda com os sentidos e a ciência com prazer. Há uma filosofia que é afirmada neste lugar: um conhecimento do momento e do espaço, do prazer e do exílio. Um modo de vida de outra maneira. Uma diferença. Um estilo. Quase uma dissidência … 

II

 …quando projetou o Palácio do Grilo, por volta de 1750, Dom Pedro de Bragança foi um dos primeiros representantes do Estado. Ministro da Justiça e neto ilegítimo do rei Pedro II, primeiro duque de Lafões, D. Pedro é um rival do já muito influente e ambicioso Marquês de Pombal. Agora, o destino do que se tornaria seu «reino interior» e o «palácio dos seus sonhos» foi rolado nos dados de um jogo de amor, onde se fundem a história particular e geral. 

Dom Pedro deveria casar-se com quem seria a «Rainha do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, de ambos os lados do mar na África, Duquesa da Guiné e conquista, navegação e comércio. Etió – pia, Arábia, Pérsia e Índia pela Graça de Deus» : Maria I. Por ser apenas um descendente ilegítimo, teve que ceder a sua mão ao futuro rei Pedro III.

Na noite da sua união, neste Palácio do Grilo, onde nasce hoje o seu «sonho de pedra e as pedras oferecidas como oferenda aos sonhos», em vez de honrar a passagem da carruagem nupcial iluminando a sua residência, Dom Pedro fez apagar todas as velas. O que descobriu naquela noite? Que decisão tomou? Já tinha o hábito de ter uma pequena gaiola com um grilo perto dele? Não tinha já escrito, na “noticia de uma construção imaginária”, que não há melhor convite para devaneios do que a canção desse inseto, a vibração do coração, o erotismo da alma e o violino» do espírito?»

III

A partir desse dia, Dom Pedro dedicou o seu talento ao seu reino onírico. Mesmo a reconstrução de Lisboa após o terramoto (1755), pela qual ele era responsável, não parecia obcecá-lo como a reconstrução do Palácio. Foi imbuído neste espírito que o Duque desenhou os seus próprios planos. 

Pegou na primeira letra de seu título para dar a forma de um L ao edifício principal. Contratou os artistas mais proeminentes da época. Instruiu-os de criar «um lugar que também não é lugar e isso pode permitir à alma o voo que mais lhe convém”.
Assim, esse reino onírico foi, de certo modo, libertado do mundo pela deceção de uma união impossível, de um trono inacessível, de uma ambição contraditória. Para Dom Pedro de Bragança, duque de Lafões, chamado «do Grilo» porque colecionava esses cantores de insetos, divertindo-se em garantir a sua multiplicação nos jardins, um outro trono, para um outro reino.

A sua morte prematura aos 49 anos não permitiu que o «construtor incomum», «o sonhador de pedras» e «o viajante na sala se tornasse mestre na arte de dormir» para ver o seu projeto tornar-se realidade. Consequentemente, apenas três séculos depois, um punhado de intelectuais, arquitetos e artistas europeus reconstruiu os termos iniciais do projeto…

IV

O historiador José Sarmento de Matos afirmou: «O Palácio do Grilo é praticamente o único exemplo de palácio particular que chegou até nós no seu estado original». Esse «estado original» ainda era uma intenção, um canteiro de obras, uma incompletude, mas testemunha uma sensação de conforto que não tem equivalente na época.

 As principais habitações senhoriais da época, especialmente quando são proeminentes como o Palácio, tiveram inicialmente um papel de representação política. As pedras foram de alguma forma montadas para os outros. «No Grilo, quero que todos os quartos, tanto na decoração quanto na função, sejam montados para nós, para ficarmos lânguidos, e sonharmos melhor do que em qualquer outro lugar do mundo». E, de facto, o Palácio do Grilo nunca se afasta de uma escala íntima, de um planeamento acolhedor.

Dom Pedro tinha-se, desta forma, aposentado dos jogos do mundo. A casa com a qual sonhava, era de facto destinada a si mesmo. Bem como aos seus amigos. Aos seus amores. E aos seus sonhos.