
O Livro do Palácio do Grilo
Prefácio, páginas do Caderno Mágico, ilustrações, fotografias e histórico — l’ouvrage intégral, page après page.
Caderno Mágico

Páginas do Caderno M ágico
Ilustrações
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O Quarto Do Horizonte
Onde vivemos a linha do horizonte.
«Por que a linha do horizonte ainda está vazando à nossa frente e quais são as oportunidades que temos para nos estabelecermos lá?»
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na poderá encontrar o horizonte a cerca de 4,7 Km, sendo que a partir desta distância o objecto irá necessariamente encontrar-se além do horizonte. N
que está além do horizonte é sem dúvida um tema que nos faz sempre viajar. Com certeza, mais longe faria viajar o pensamento de D. Pedro - e aqui se distingue pela sua singularidade - o facto de o intrigar mais profundamente aquilo que o seu olhar podia alcançar: a linha do horizonte. O fascínio do longínquo, talvez seja o melhor termo para descrever o desejo - ou especular a hipótese - de se fixar precisamente nesse lugar inaudito onde o céu toca a terra, ou o mar, por hipótese. É
uma tentativa de conter o horizonte - talvez se possa chamar assim - Gerard Desargues postulou, em 1648, o enunciado que descreve algo mais específico: a linha do horizonte. Na concepção desarguiana, observa-se a possibilidade de dois triângulos se encontrarem em perspetiva axial - apenas e exclusivamente se se verificar como condição primeira que se encontrem também em perspectiva central. Ou seja, o teorema de Desargues assegura portanto que a veracidade da primeira condição é indispensável - e basta-se - para que se verifique a veracidade da segunda. N
no âmbito de extensivas indagações deste inóspito estado de mente, que certamente terão sido dois grandes nomes conhecidos da história da matemática as principais influências do Duque: Euclides de Alexandria, pai da geometria Euclidiana e uma recorrência constante em quase todos os aspectos dos seus estudos, e o matemático, arquiteto e engenheiro militar francês Gerard Desargues, pai da geometria projetiva. Antes de se perceber como Desargues postulou o teorema que descreve matematicamente um não-lugar invisível que todos conhecemos, importa perceber o que se pode considerar o horizonte em si; aquilo a que chamamos o horizonte (do grego antigo limitar), na sua acepção geométrica, este elemento pode definir-se como a linha que se vê ao percorrer com os olhos um lugar aberto e plano, quando ao longo da qual nos parece ficar a impressão de que o céu toca terra ou o mar. Embora possa ser considerado inclusive em áreas não planas, neste cenário não é possível ser observado. Uma pessoa de estatura media-
este sentido, e de forma mais simples, o que acontece é que, uma vez prolongando-se no espaço as linhas que unem os lados correspondentes de cada um dos triângulos, estas irão encontrar-se em determinados pontos de convergência sobre uma linha horizontal no plano inferior chamada de eixo de perspectiva. No caso de o Teorema de Desargues ser estudado em projetiva (no espaço tridimensional), o eixo de perspectiva passa a ser a reta de fuga - também chamada de linha do horizonte - pois o ponto ou os pontos de fuga do plano de visão, em sistemas com um ou dois pontos de fuga, estão sempre localizados na linha do horizonte.
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O Quarto Antigravitacional
Onde objetos e seres escapam da gravidade.
«Parece-me importante no momento em que o Sr. Newton nos lembra a lei sobre a queda de corpos (gravitação universal), lembrar que eles não podem cair.»
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na entrada do Iluminismo oitocentista que marcou o Século das Luzes, que Bartolomeu Dias Gusmão, cognominado de «o Padre Voador» e introduzido como personagem na obra-prima literária do Nobel português José Saramago, «Memorial do Convento», pelas suas experiências com a Passarola, apresenta na côrte do rei D. João V, «o Magnânimo», os seus ensaios com os primeiros protótipos de balões de ar quente. A Passarola, na verdade, tratava-se de uma engenhosa e aparatosa manobra de distração com o objetivo de manter afastados do olhar curioso dos seus cômpares a verdadeira natureza dos estudos de D. Pedro sobre a ciência do voo assentes no Princípio de Arquimedes, e não na propriedade alquímica do magnetismo do ar tão popular à data. N
ão se pode dizer que as suas primeiras demonstrações tenham sido um sucesso imediato: visto que nas primeiras quatro vezes sempre se verificou o incêndio do balão, porém havendo progressos em todas as tentativas. Valeu a persistência do Padre, o espírito científico do Rei, e a intervenção rápida dos serviçais do Palácio que por mais do que uma vez se apressaram a derrubar o balão com varas impedindo que este largasse fogo aos cortinados do Palácio Real. Depois de viajar pela Europa durante uma temporada, Bartolomeu Dias Gusmão vê-se acusado pela Inquisição de se converter ao judaísmo aquando do seu regresso a Portugal. Não lhe restando portanto nenhuma alternativa senão fugir para Espanha, refugiando-se em Toledo. F
oi o fim dos avanços científicos sobre os princípios do voo para os portugueses, sendo que apenas anos mais tarde em Novembro de 1783, é levado a cabo pelos franceses Jean-François Pilâtre de Rozier e François Laurent d’Arlandes o primeiro voo controlado com um balão de ar quente, este por sua vez construído pelas artes e engenho dos irmãos Montgolfier.
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O Quarto Monocromático
Onde só há uma cor.
«Os nossos olhos têm apenas uma oportunidade de ver uma cor e essa cor só aparece quando dormimos, quando as nossas pálpebras estão fechadas». Penso que é útil apresentar os nossos olhos com um sono de outra cor, tão único como o preto dos nossos sonhos. »
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s descobertas newtonianas constituíram uma das maiores fontes de inspiração e conhecimento para os estudos de D. Pedro, não só no que respeita à Lei da Gravidade como também relativamente aos seus estudos contemporâneos sobre o spectrum (palavra latina que designa “aparição”). Este último objecto principal de escrutínio detalhado na obra do físico, cientista e astrónomo - Optica (1704), observando as diferentes hipóteses e teorias que poderiam explicar de forma científica a refracção da luz, os diferentes comprimentos de onda visíveis ao olho humano, o reflexo de uma imagem, e como um prisma poderia replicar invertidamente a composição de um feixe de luz branca. É
o também matemático, alquimista, filósofo e cientista Isaac Newton a figura principal e incontornável que permeia este espaço, como já foi referido. T
ambém foram alvo das indagações de D. Pedro os temas propostos e hipotetizadas por William Porterfield, médico escocês do século XVIII que escreveu o primeiro relato com conhecimento de causa sobre a Síndrome das Dores Fantasma após ter uma das pernas amputadas. Porterfield foi a primeira pessoa na História a teorizar a percepção sensorial como a razão que explicaria o fenómeno desta síndrome em que o cérebro “sente” a sensação de dor ou de frio num membro que já não está presente no corpo. Assim, os elos de ligação entre o olho e as percepções óticas, e como estas se relacionariam com os sistemas nervoso e cognitivo por pontos convergentes com as percepções tácteis, são convocadas da seguinte forma na passagem de uma das obras literárias de Porterfield: “
assim neste contexto do estudo da fenomenologia da percepção ótica, principalmente nos campos da visão, dos componentes físicos que integram o olho tornando-o o mais complexo dos órgãos dos 5 sentidos, e no que percebemos como as frequências do espectro de luz a que chamamos cor, que os grandes mestres de duas áreas se destacam como as maiores influências para os estudos de D. Pedro: alguns dos nomes mais impactantes da pintura Renascentista, como Da Vinci, Caravaggio, e Tintoretto, nomeadamente os seus métodos e técnicas inovadoras de representação da perspectiva e tratamento da cor, e também a Ciência do Racionalismo Iluminista do século XVIII, sendo
There is not one Part of the whole Body, that discovers more Art and Disign (sic), than this small Organ: All its Parts are so excellently well contrived, so elegantly formed and nicely adjusted that none can deny it to be an Organ as magnificent and curious, as the Sense is useful and entertaining.”
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O Quarto Desproporcionado
Onde as dimensões são livres.
«Eu gosto da proporção, mas acredito que o seu oposto deve ser tentado, quanto mais não seja para melhor corresponder ao impulso ultrajante dos nossos sonhos». »
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proporção áurea ou proporção divina (sectio aurea ou sectio divina em Latim) é um número irracional igual a ~1,618 e que pode ser representado pela 21ª letra do alfabeto helénico - PHI, em homenagem ao escultor grego Fídias (Phideas). Euclides definiu o também chamado de Número de Ouro como resultado de uma operação geométrica bastante simples, sendo um número irracional misterioso e enigmático que aparece sempre de alguma forma em todos os elementos da natureza, e também uma referência nas artes visuais visto constituir uma expressão do belo, muito utilizada por Leonardo Da Vinci tanto nos seus quadros como nos seus estudos (O Homem de Vitrúvio), Picasso, entre outros tantos grandes nomes da pintura e da escultura. O
lisses, que já se disse ter sido quem deu o nome romano à cidade de Lisboa (Olisipo), é o exemplo paradigmático do herói trágico que luta por compreender o metron em todas as suas acções, como relata Homero na Odisseia. Já na Ilíada, temos a versão do herói trágico que se deixa apoderar pela húbris - o excesso, por oposição ao metron - provocando a ira dos deuses na Guerra de Tróia: Aquiles. N
este contexto dos revivalismos clássicos do iluminismo oitocentista e tendo a proporção como base, D. Pedro estaria certamente a par da Unidade dos Opostos proposta ainda por outro célebre filósofo grego no século IV AC., Heráclito. Este conceito descreve a existência de algo como sendo indissociável da existência e comparação entre duas outras coisas opostas, e foi aprofundado por Hegel em finais do século XVIII na sua crítica às observações de Immanuel Kant sobre o assunto. No ano de 1202, um matemático de Pisa conhecido como Fibonacci “tropeçou” naquilo que viria a ser talvez a mais célebre sequência de toda a matemática. Partindo de um problema de cálculo para aferir quantos coelhos se poderiam reproduzir no espaço de um ano, foi descoberta esta famosíssima sequência de números em série conhecida como “sequência de Fibonacci”, e na qual cada termo é obtido pela soma dos dois números imediatamente anteriores, da seguinte forma: 1, 1, 2, 3, 5, 8, 13, 21, 34, 55, 89, 144, 233, 377...
célebre racionalista Johannes Kepler fez notar em 1611 algo de muito interessante e que continua a intrigar as mentes mais brilhantes passados quase 500 anos. Kepler repara que a divisão entre um número de Fibonacci* e seu precedente é sempre igual ao número Phi quando se avança para valores exponencialmente maiores. Ou seja, F(n)/F(n - 1) tende para Phi quando n tende para infinito. E
sta constante algébrica trata-se portanto do conceito matemático que expressa o produto da fórmula de ouro, e que por sua vez está intimamente ligado ao conceito da Grécia Antiga de metron. A ideia de metron na cultura Clássica expressava a “medida certa”, constituindo um dos principais traços de carácter que todos os heróis gregos deveriam possuir.
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O Quarto Semiológico
Onde nos expomos.
«Gostamos das obras dos nossos ancestrais distantes ou das pessoas que vivem nos antípodas, mas raramente questionamos, com os mesmos olhos curiosos, os nossos próprios objetos, os daqui e agora. Eles não são eles mesmos?»
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ao dia a dia da nobreza oitocentista começa em 1580 com a maior praga epidémica desde a Peste Negra - a sífilis. Os hospitais eram nesta altura um cenário dantesco com que alguns dos piores dos pesadelos não competiriam. Sobrelotados e com uma higienização e saneamento parcos, estas instituições abarrotavam de camas com pessoas infectadas que agonizavam com escaras em ferida, febres alucinogénicas, demência, cegueira, entre outros sintomas menos agressivos, como por exemplo falhas no couro cabeludo. S
distinta educação que D. Pedro e os seus irmãos sempre receberam assegurada em todas as medidas pela sua mãe D. Ana Casimira de Sousa Nassau e Ligne, possibilitou ao Duque um fascínio curioso e um interesse particular pelas culturas do Médio e Extremo-Oriente. O varão primogénito dos três irmãos foi um aluno de excelência, destacando-se por diversas ocasiões em Línguas e Humanidades. Daí advinha a sua facilidade na fluência das principais línguas Asiáticas, além das Ocidentais, e que tal como a sua paixão pela Geografia e Filosofia em muito contribuíram para um espírito questionador na sua mais fundamental natureza. E
er careca passa assim a constituir um sério motivo de embaraço público - ao ponto de não se poder sair à rua - e por oposição ao maior sinal de status na altura que era a moda dos faustosos e saudáveis cabelos compridos. É portanto neste contexto que se dá o aparecimento da febre das perukes. Porém, as perucas não eram exactamente um elemento de estilo, e antes uma necessidade quase humilhante para esconder as falhas, feridas, e odores nefastos provocados pela doença. T
stá-se portanto perante um pensar global que compreendia uma mundivisão rara à época. Esta visão do mundo, um novo olhar do que o rodeava e que de alguma forma se reconstruía a cada dia, mostra de facto que D. Pedro era um homem séculos à frente do seu tempo - talvez mesmo aquilo a que se possa chamar um homem intemporal, e que se poderia questionar sobre o mais banal dos objetos quotidianos com a mesma profundidade com que se intrigava pelos mais exóticos aspectos das culturas antípodas de tempos passados. As principais influências no pensamento de vanguarda iluminista a destacar neste questionamento da contemporaneidade do século XVIII, no âmbito da História do mundo, da humanidade, e da Europa em particular, sempre dentro de uma lógica transversal às épocas, terão sido com certeza alguns dos seus autores de eleição, nomeadamente Voltaire, Rosseau, e John Locke.
udo isto muda em 1655 quando o jovem Rei de França começa a perder o seu cabelo ainda no final da adolescência. Louis XIV, o emblemático Rei Sol que erigiu o Palácio de Versalhes, nome ainda hoje bem lembrado nos maiores sucessos da confeitaria típica portuguesa, tinha apenas 17 anos quando começou a ficar careca. Preocupado com o que isto poderia fazer à sua imagem e reputação, o rei contrata 48 peruqueiros para resolver a questão. Cinco anos depois o rei Carlos II de Inglaterra segue o exemplo, e em menos de uma década a Europa conhecia a nova tendência estética na moda masculina.
ale o exemplo paradigmático daquele que seja talvez o objecto do quotidiano mais emblemático de todo o século 18: as perucas para homem. A história destes items indispensáveis
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O Salão Polifônico
Onde nada está definido
«Quem sou eu para mim? Nada mais do que um dos meus sentimentos. O meu coração esvazia-se apesar de si mesmo, como um balde perfurado. Está a pensar? Para sentir? Como tudo nos cansa, assim que se trata de algo bem definido.»
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filosofia caracteriza-se pela ciência que nega todos e quaisquer dogmas, ou verdades absolutas. Tudo é subjetivo, tudo é discutível, nada neste planeta pode ser tomado por garantido. O subjetivismo assume-se como a doutrina filosófica que afirma que “a verdade é a mentira individual”. A verossimilidade de uma determinada questão, difere de indivíduo para indivíduo. Cada um de nós escolhe a sua realidade. D
.Pedro depara-se com um dilema sobre a sua individualidade, comum a muitas pessoas, que procuram ansiosamente por um propósito, um objetivo ou um rumo, nesta vida que nos leva como um tronco à deriva. Ávido consumidor de livros filosóficos, o nobre Duque não é estranho ao mundo segundo esta perspetiva subjetivista, até tendo escrito uma pequena crónica, em 1747, (que nunca chegou a ser publicada) que se debruçava exatamente com esta falta de identidade, este sentimento de desespero comum ao indivíduo que se sente perdido, que se sente só mais uma ovelha no rebanho. C
om o salão polifónico, D.Pedro cria uma intensa sinestesia, uma testilha entre os sentidos, resultando numa sopa de ruídos, superfícies, cheiros e pinturas, quase demasiado intensa, que abafa o visitante.
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O Quarto Da Última Viagem
Onde dormimos infinitamente.
«Gostaria de abordar o imenso e ótimo sono que nos espera.»
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ossivelmente terá sido nos últimos anos de vida de D. Pedro que este, por feitio já de si um questionador da vida, mais ainda se começou a debruçar sobre o questionamento do lado intangível do Ser, olhando de frente e não tão longe o mistério absoluto que é a morte. Sabendo o Duque do fim iminente que o aguardava após contrair uma doença terminal no rescaldo do Terremoto de Lisboa de 1 de Novembro de 1755 - sendo que a História resgata o seu empenho e devoção à causa de reerguer a braços Lisboa, “tratar dos vivos e enterrar os mortos”, sem se deter com os riscos que o transporte de corpos sem vida dia após dia acartava para a sua própria saúde - dedica-se por altura de 1757 com um olhar mais compreensivo ao estudo do outro lado do espectro animado (de anima - sopro, brisa, ou alma em Latim). D
e inaudito do tipo de interpretações religiosas que deram origem à Santa Inquisição, que já estudioso e conhecedor destes assuntos, o Duque se interessa de forma mais profunda pelos saberes instintivos, esotéricos e alquímicos do misticismo antroposófico. Encontra as suas referências basilares no estudo da astrologia nas culturas milenares orientais e indo-europeias, assim como mais concretamente em autores como o ocultista Nicolas Flamel ou o alquimista Johann Georg Faust (a inspiração para a obra-prima literária de Goethe, Fausto). É
desta forma que apura o sentido de escuta ao traçar os pontos de contacto entre os antigos saberes do empirismo teosófico como por exemplo os Registos Akáshicos (do Sânscrito ākāśa), que significa “éter” ou “atmosfera”) e as novas descobertas da revolução científica nos campos da astronomia, física, e biologia - destacando-se de entre estes a Teoria Heliocêntrica proposta por Nicolau Copérnico e comprovada por Galileo Galilei que pela sua defesa foi condenado - e também os saberes Clássicos postulados pelos filósofos da Grécia Antiga, como o átomo, mais tarde comprovados pela ciência.
e uma religiosidade serena e imperturbável, e por um lado profundamente dedicado e comprometido com as bases que sustentam a religião Cristã da partilha, sacrifício, e dos bons princípios, mas por outro lado impossibilitado pela sua própria inteligência de se ver constrangido pelo fanatismo cego
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O Quarto Nu
Onde tudo é nudez.
«A nudez nos deixará nus.»
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vulnerabilidade do ser humano atinge o seu apogeu com a plenitude da nudez. Enquanto despidos, não existe proteção, não existe conforto. Existe, por sua vez, candura e verdade. Ao não estar dotado de vestes, o ser humano é análogo. Não há diferenças.
simplicidade característica desta divisão é uma lufada de ar fresco na tempestade que era a mente de D.Pedro. Aqui, não haveria distinção, apenas autenticidade. A pureza que representa a figura humana, enquanto nua, remete fortemente para o panorama religioso. Tendo obtido uma pedagogia muito centrada na devoção e no catolicismo, o 1ºDuque de Lafões, desde cedo, travou contacto com a nudez. Desde as numerosas pinturas de anjos que enchiam o palácio de vida, às esculturas despidas que davam caráter aos jardins, a nitidez de que o nu humano é dotado, esteve sempre presente na vida do Duque.
história da arte é povoada por imagens da sexualidade e do erotismo representantes do imaginário coletivo de cada época. O fascínio pelo corpo humano, nus femininos e masculinos e cenas erotizadas aparecem na produção artística de cada período num diálogo constante entre a moral, as formas e as técnicas de representação na arte. A consciência de que a arte não se encontra afastada das questões políticas e das ideologias é fundamental para compreendermos não só a produção artística, mas também a eleição e favoritismo de certos temas e formas de representação. N
o longo salão do palácio do grilo, no qual D.Pedro cresceu, descansava a sua obra favorita: uma réplica “Vênus de Urbino” de Vecellio, que apesar de ter sido pintada no século XVI, enfeitiçara o jovem nobre, que se apaixonou pela figura feminina representada na tela. Assim, desde cedo que D.Pedro demonstrou uma inclinação para o erotismo e a sexualidade que as representações artísticas da nudez transpareciam.
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O Quarto Aberto
Onde o teto é o céu.
«Uma sala tem pelo menos quatro paredes e um teto, e se não tiver nada disso? Se for uma abertura e não um fechamento?»
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uma divisão, se um jardim puder ser a minha sala?
ma das ideias que viajava longe na mente de D. Pedro, e que por instantes lhe parecia parar de repente a existência em seu redor para logo voltar ao cabimento do seu mundo, era, a par do tempo e como não poderia deixar de ser, a ideia do espaço. Mais concretamente, aquilo que verdadeiramente parecia intrigar o Duque de Lafões era a ideia que se tinha de um espaço fechado. Como uma sala, por exemplo. O
ssim, num ato de puro instinto intelectual e criativo, possibilitado pela sua grande devoção aos estudos e pluralidade de entendimentos, D. Pedro pode ter-se aproximado de pensamentos singulares tão excêntricos e próximos de serem provados pela ciência como Demócrito se aproximou do átomo dois mil anos antes de Einstein provar este elemento pelo peso de algo visível na transformação para o plano invisível, solucionando o postulado de Brown no qual o pai da Relatividade Geral viu não um problema, mas uma pista. É
que poderia ser, no limite, um espaço fechado encerrado em si mesmo, se não a barreira invisível daquilo que não se conhecia para lá das estrelas? Nem hoje, passados quase três séculos, se pode conhecer que seja a cabeça de um alfinete do que existe para lá das nossas estrelas. Sabemos que a Via Láctea e Andrómeda irão um dia enlaçar-se numa dança estelar de profunda beleza, caos, e renascimento, num futuro tão distante que quase não pode existir para nós senão no plano racional. Sabemos também que esta dança cósmica ilustradora da verdadeira força da criação universal em todo o seu majestoso esplendor, irá no fim terminar ao agraciar o universo com o nascimento de uma nova galáxia, pela extinção ou talvez fusão das suas predecessoras. E num dos braços desses dois colossos do espaço amarrados pela força do destino - que a este nível se poderá também chamar Lei de Atração ou Força da Gravidade - a dançarem a sua morte individual, cá estamos nós, e estiveram os que vieram antes, e estarão os que vierem depois. E então o que é um espaço, o que significa uma parede, quantas dimensões podem caber em tudo e em nada, e no limite o que significa
no mínimo curioso olhar para este cenário e pensar que hoje se tem quase como certo que o Universo seja finito (pelo menos neste plano em que os nossos corpos o habitam), e que a comunidade científica começa a aceitar a única Teoria que até hoje consegue conciliar elegantemente a linguagem matemática inscrita no ADN do universo harmonizando a Física Quântica com a Relatividade Geral - isto é, sem “forçar os números”, o que costuma ser um indicador de se estar no caminho certo. Trata-se da Teoria do Universo Holográfico, postulada pelo em tempos canalizador Leonard Susskind. Susskind desenvolve-a partindo do Princípio Holográfico de Gerard ‘t Hooft, mas apoiando os seus cálculos na Teoria das Cordas para sustentar a hipótese. É curioso, porque é na integração destas duas possibilidades que se realiza uma volta completa nas asas da História: voltando ao início das Sombras na Caverna de Platão.
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O Quarto Medonho
Onde os nossos medos nos amam
«Acho que amo o medo, ou seja, a eletricidade que percorre o meu corpo de cima para baixo, mas ainda assim corro, quase sem pensar, por instinto. Eu pergunto-me se não devo gostar mais e abraçá-lo completamente.»
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. Pedro perdeu o pai no naufrágio de uma barcaça que atravessava o Tejo em noite de vendaval. Poucos anos depois perdeu a mãe, que morreu também afogada. Viu a doença de perto e sobreviveu ao terror da Lisboa em Chamas depois do terremoto, tsunami e incêndio que varreram a cidade juntamente com um quarto da sua população. Mas talvez nenhuma destas instâncias tenha gelado os ossos ao Duque de forma tão vívida como a sua peripécia com o tio: D. João V, o Rei-Sol português. D. Pedro esteve mesmo muito perto de conhecer o lado menos carismático e compreensivo do seu padrinho.
uito dificilmente, este episódio não faria gelar a alma a qualquer um, e poderá ter sido uma das inspirações de D. Pedro para refletir sobre o medo e todas as suas formas. A uma luz de séculos de distância, quase que poderia comportar um carácter anedótico, mas considerem-se, além dos danos físicos, os danos morais e psicológicos que este evento não teria tido na vida de D. Pedro - ou de qualquer um - principalmente na teia de intrigas e reputações manchadas que sustentava o tecido vital e dinâmica social da Côrte portuguesa de 1700, e que D. João V tão bem conheceria. O medo assume formas quase tão diversificadas como as coisas que não se conhecem. A morte de um filho, a dor, a fome, o Inferno, a doença, a vergonha, ou até o ciúme, eram algumas das formas de medo mais próximas desta época. Mas também ser comido por um leão, dormir com escorpiões do deserto, ou ir nadar num lago que é a casa de um monstro pré-histórico como uma anaconda de 12 metros, são um tipo de medo que traz consigo uma resposta biológica muito particular ao contrário dos outros: a adrenalina - e que foi bem conhecido dos portugueses nos Descobrimentos, além de estar imortalizado no poema O Mostrengo de Fernando Pessoa. N
história começa com D. Luísa Clara de Portugal, também conhecida por Flor da Murta. Este epíteto terá sido agraciado pelo próprio rei numa breve estrofe de quatro versos que lhe dedicou nas imediações do Paço Ducal, quando se terão encontrado por acaso num passeio pelos jardins. D. Luísa, uma das mais belas mulheres portuguesas da época de que há registo, veio mais tarde a ser companheira de D. Pedro durante algum tempo. Porém, antes desse tempo, a Flor da Murta foi provavelmente a amante de condição nobre que mais enlaçou de encantos D. João V. Ao saber do envolvimento deste outrora seu segredo da natureza com o Duque, D. João V não esteve de modas e ordenou que o sobrinho fosse castrado, de maneira a castigá-lo exemplarmente. Inteirado das intenções do rei, valeu a intervenção rápida de Frei Gaspar da Encarnação, amigo e conselheiro de D. João V que ameaçou o rei com o Inferno caso escolhesse levar avante este castigo macabro contra o seu afilhado. Crente e devoto, não tendo poupado esforços para obter o título de Sua Majestade Fidelíssima junto da Igreja Apostólica Romana (apesar de todo o seu historial de amantes no Convento de Odivelas), talvez até de pensamento mais limpo, D. João V refreou os ânimos e retirou a ordem ante a ameaça do fogo eterno, possibilitando assim que D. Pedro pudesse continuar a ser feliz com D. Luísa Clara por largos e bons anos. Sem no entanto nunca casar, a única filha legítima de D. Pedro nasceu fruto desta relação amorosa - de seu nome Ana de Bragança.
o final, há um medo que ainda hoje é tão atual e que D. Pedro conheceu de perto: que é o medo de olhar a morte aproximar-se no horizonte. Não num futuro longínquo de 20, 30, ou 40 anos - mas saber que, na melhor das hipóteses, se tem uma esperança máxima de 5 anos de vida, ou muito menos do que isso. Neste contexto, entre uma tristeza profunda e a urgência de ter uma resposta, o Duque terá nas suas reflexões compreendido que ao consciencializar e presentificar o seu medo, o que lhe ficava eram duas coisas. Em primeiro lugar, a saudade daqueles que amava. E em segundo, a inquietude de um não-lugar desconhecido. Porém, a determinada altura - já numa fase final da doença - o Duque terá percebido que essa inquietude era algo que, contra todas as convenções, devia ser abraçado com a mesma força imensurável com que se despedia da vida, ainda que fosse bastante mais difícil.
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O Quarto Do Descanso
Onde somos abstraídos do mundo e das suas dispersões.
«Deixe todo mundo atrás da porta desta sala e volte para si mesmo.»
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verdade é que, havendo um conhecimento integrado do homem singular que foi o 1º Duque de Lafões, os seus cadernos nem sempre - ou quase nunca - se nos revelam de entendimento fácil. Voltar para si mesmo, abrindo a porta de uma sala. Um convite lancinante ao realizar uma ação não menos intrincada - pelo menos, tomando por princípio as inferências que se possam ousar. Q
uantas portas de quantas salas poderiam ser compreendidas nesta frase, é um jogo de possibilidades infinitas que se percebe, antes de mais nada, ser de uma mordacidade ingénua. Não obstante a premente clareza deste aspecto, por todos os motivos sustentado na história de uma vida que pôde testemunhar o vasto império da imensidão das coisas, adivinha-se que D. Pedro se poderia estar a referir à porta de todas as salas que abrem para a unificação do ser: o renascimento do olhar. Abrir a porta da humildade de se ser maior que si próprio. Olhar o reflexo de um corpo num lago e percebê-lo tão efémero e eterno ao mesmo tempo como a própria água que lhe permite saber-se. Talvez, nunca parar. Nunca parar de ser, nunca parar de tentar, e nunca parar de se sentir como quem se conhece.
espiritualidade é um caminho, e um caminho tem de ser percorrido. As palavras de D. Pedro descobrem uma intangibilidade serena do outro lado do que seja a porta desta sala, mas parecem transparecer a premissa de uma acção de forma peremptória. Ao que algumas das cartas trocadas com o seu irmão D. João Carlos de Bragança, 2º Duque de Lafões, parecem indicar, havia um ponto de discórdia entre ambos no que refere ao que os dois irmãos compreendiam ser aquilo se pode alcançar com o eco das ações de nobre carácter. É preciso dizer que os Duques eram necessariamente duas pessoas de um espírito inquebrável, compreendendo o lema da família Sousa em toda a sua educação e plenitude no estar: “Antes quebrar, que torcer.”
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O Quarto Incrível
Onde as imagens dos nossos sonhos estão encarnadas.
«Quando esgotarmos os poderes de nossa razão e da nossa matemática, acredito que redescobriremos as formas dos nossos sonhos. Não são o resultado das grandes horas da arte do sono às quais cada um de nós dedica metade da sua vida? Com eles, não somos deixados inteiros?»
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William Shakespeare, como muitos outros, encontrou uma fonte inesgotável de inspiração nas comédias Aristofânicas - como se pode ver mediante uma análise cuidada entre «Os Pássaros ou As Nuvens» e «Sonho de Uma Noite de Verão». Já ouviu a frase “estar com a cabeça nas nuvens”? A Aristófanes e à sua Cuckooland o deve. P
ambém a literatura dramática ocuparia um lugar muito especial no espírito do Duque, quando este se sentava ocioso numa manhã solarenga de um sábado oitocentista revisitando os grandes clássicos da arte teatral. E aqui se compreendem tanto aqueles transversais à passagem do tempo - leia-se - as obras dos três mestres gregos Ésquilo, Sófocles e Eurípedes - autores das grandes tragédias que chegaram aos nossos tempos como «Rei Édipo», «Agamémnon», ou «As Troianas», assim como a carta fora do baralho das tragédias - Aristófanes - que já no século IV AC tinha encontrado a fórmula da sátira social inteligente através das suas tragicomédias intemporais que ainda hoje encontram um eco nas realidades das democracias contemporâneas. O
orém o dramaturgo inglês que imortalizou o seu nome na História do Teatro mais do que qualquer outro oferece uma sensibilidade de emoções porventura expressa de forma mais próxima no que toca ao domínio dos sonhos para quem conhece a vida depois de 1500. Um dos versos do First Folio do corpus shakespeariano que provavelmente será um dos três versos mais conhecidos de sempre, coloca uma não-questão que dá que pensar. Em «A Tempestade», no reino onírico da terra dos sonhos que representa a Ilha de Próspero, este personagem dá-nos uma das frases eternas da literatura com a seguinte fala: “We are such stuff as dreams are made on, and our little life is rounded with a sleep.” E
génio de Aristófanes é insuperável na medida em que o dramaturgo se permitia o luxo de dançar no limbo do que tão facilmente - e nunca oficialmente pelos motivos verdadeiros dado o propósito social das comédias teatrais na primeira democracia da História - poderia ser censurado no processo de escolha das peças a concurso das festas dionisíacas atenienses. Aristófanes foi inclusive o único dramaturgo até hoje que conseguiu literalmente destronar-se a si próprio - na medida em que concorreu a uma das dionisíacas com a peça As Vespas sob sua autoria oficial, e com a peça A Previsão sob um pseudónimo - sendo que esta última ganhou o primeiro prémio, enquanto que As Vespas se ficou pelo segundo.
, claro, só a imaginação poderá ter uma ideia de quanta inspiração D. Pedro não terá ido buscar a Hamlet para se debruçar sobre o tema dos sonhos, em passagens do próprio protagonista que nomeia a peça, tais como: “To die, to sleep – to sleep – perchance to dream: ay, there’s the rub, for in that sleep of death what dreams may come when we have shuffled off this mortal coil, must give us pause”, ou, num olhar mais abrangente, o mundo que compreende uma outra fala do jovem Príncipe da Dinamarca, nas seguintes palavras: “A dream itself is but a shadow”. Quantas Ideias Perfeitas de Platão, Spectrums de Newton, e ensinamentos bíblicos não poderia uma alma inteligente ler nestas passagens?
s qualidades intelectuais de Aristófanes poderiam ser resumidas no encerramento do texto filosófico-debochista de Platão “O Symposium”, ao final do qual quando de manhã o sol nasce apenas Aristófanes, Sócrates, e Agathon continuam acordados.
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O Quarto Da Estátua
Onde somos anfitriões de uma estátua.
«Concordamos que uma estátua está parada, mas já esfregámos o suficiente para afirmar? E se, por força de ser abordada e observada, se moveu finalmente.»
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. Pedro era, como já foi referido, um aficionado pelas culturas milenares da Ásia Oriental, contando-se entre a sua coleção de faianças várias peças de porcelana chinesa sendo que a maioria integra o período da Dinastia Ming, mas também algumas da Dinastia Qing. Da mesma forma, enquanto um homem formado nas coisas do mundo - e apesar de profundamente devoto (sendo sempre o primeiro às portas da Igreja aos domingos de manhã, como refere o seu elogio fúnebre) - despertavam-lhe também um enorme interesse as culturas seculares profanas e pagãs. N
Champollion, que esta cultura milenar ainda hoje e talvez para sempre envolta num véu de insondável textura, pôde ser olhada com uma nova perspectiva. Em 1700, tudo o que o mundo ocidental sabia sobre o povo egípcio provinha de duas fontes de informação algo imprecisas: as inferências e alusões nos registos Bíblicos, e os relatos históricos “filtrados” pela cultura helénica nas duas epopeias do povo grego.
ssim, por volta de 1749 quando o Duque adquiriu esta intrigante peça de arte egípcia, o que se sabia sobre os egípcios resumia-se ao Corpus Hermeticum de Hermes Trismegisto (sec. 4 AC) e pouco mais, sendo que nenhuma destas fontes era exactamente precisa como já se fez notar. Porém, durante o século XVII, o jesuíta alemão Athanasius Kircher providencia uma tradução alegórica dos hieróglifos. E
os jardins do Palácio do Grilo é possível ver ainda hoje uma fonte composta por um conjunto escultórico de jovens tritões suportando uma concha, esta por sua vez encimada por uma alegoria ao mito de Ganimedes. Numa das versões do mito de Ganimedes, Príncipe troiano e um dos heróis da Guerra de Tróia elevado por Homero pela sua beleza singular entre os mortais, conta-se que este era tão belo, tão belo, que quando Zeus o viu trabalhando nos campos, imediatamente se transformou em águia e logo raptou o jovem adolescente para que este fosse seu servo no Monte Olimpo. C
ntre os documentos encontrados nos maços de correspondência da Quinta de Alpriate, D. Pedro dá conta de um episódio intrigante envolvendo a sua excêntrica aquisição: D.Pedro comenta como não cabe na sua compreensão racional ter o busto sobrevivido imaculado a terramoto que destruiu uma cidade, e ter tombado na sua frente estilhaçando-se no chão em mil pedaços, aparentemente pelo simples acto de estar a ser observado.
abe dizer que não foi até cerca de 1820 com o deciframento dos hieróglifos Egípcios por Jean-François
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O Q u a r t o L e v i t a nt e
Onde levitamos.
«Gostaria de ver o que posso conceber em espírito, ou seja, objetos que flutuam sob o efeito de uma força magnética irresistível.»
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nquanto um dos fundadores da ciência clássica por detrás do eletromagnetismo, as novas descobertas e teorias propostas pelo matemático e físico francês André-Marie Ampère para explicar as bases deste fenómeno terão sido as principais influências para as investigações de D. Pedro sobre o assunto. Também o seu contemporâneo e conterrâneo Charles-Augustin de Coulomb, por sua vez engenheiro militar e físico de ocupação, terá dado o seu contributo para as dissertações do Duque nesta matéria ao descrever a força eletrostática na atração e repulsão dos objetos. C
tuar entre os ímanes, quase numa acepção de gravidade zero quando esta estava ainda longe de ser provada pelo primeiro homem no espaço, o russo Yuri Gargarin. N
o entanto, era uma ideia arriscada, pois facilmente vários factores tinham o potencial de não correr bem e a sua cobaia morrer ou acabar bastante maltratada. Era também possível que se despendesse uma avultada quantia tendo em vista algo com uma probabilidade de funcionar tão escassa nas primeiras tentativas. Uma segunda hipótese que se instalou mais tarde no pensamento de D. Pedro, foi conceber um outro aparelho da mesma natureza - só que desta vez haveria apenas um íman gigante no chão de uma determinada polaridade (postiva ou negativa) , e uma armadura de escamas, não em ferro, mas toda feita em pequenos ímanes de polaridade oposta à do íman principal viradas para o lado exterior. Através da força de repulsão, D. Pedro acreditava que com este aparelho seria possível a um homem flutuar no ar caso fosse largado ou saltasse mesmo por cima do íman gigante. Por falta de tempo ou ocasião do destino, não há registo de o 1º Duque de Lafões alguma vez ter posto em prática esta curiosa e inusitada experiência.
ontudo, apesar de conseguir compreender a maioria dos mecanismos científicos inerentes aos conceitos, a grande ambição de D. Pedro era poder conseguir ver essas forças em ação. Mais do que isso, D. Pedro imaginou um aparelho de maquinaria com dois ímanes gigantes contra polarizados dispostos um por cima do outro, e com cerca de 3 metros de intervalo. Entre ambos estaria um homem envergando uma armadura de corpo inteiro. Por obra da força magnética, se este aparelho estivesse calibrado até ao último detalhe, era expectável que a anulação das duas forças sobre a armadura de ferro permitissem ao indivíduo flu-
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O Quarto Ao Inverso
Onde tudo te faz voltar.
«Todos aqueles que viraram as costas me prestaram um grande serviço, o de me deixar livre dos olhos. Eu sou essa criança que a liberdade surpreende quando toda a vigilância é silenciosa. O que você fará, fora da vista?»
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Quadrifolium constituído pela caderna de crescentes de prata na heráldica do escudo da Casa de Lafões (ou Lunel em francês), por sinal o signo mais emblemático do brasão desta Casa, foi herdado pelo lado Sousa Arronches remetendo à família materna de D. Pedro de Bragança, a sua mãe D. Luísa Casimira de Sousa Tavares e Ligne, filha do Marquês de Arronches. Esta figura trata-se de uma caderna constituída por quatro crescentes de prata, e cada um representa uma batalha ganha contra os Mouros na família Sousa.
cognome «Sousão» ao cavaleiro D. Mendo de Sousa poderá dever-se ao facto de este ter herdado alguma genética mais próxima do seu trisavô: o primeiro Senhor da Casa dos Sousa e cavaleiro medieval de origem visigótica, D. Sueiro Belfaguer (875-925). É através das histórias contadas de geração em geração e literatura Viking antiquíssima adquirida ou herdada pelo seu antepassado, o Conde de Mafra e da Ericeira D. Lopo Dias de Sousa (1350-?), que D. Pedro tem acesso aos fantásticos contos e monstros da mitologia nórdica, como o Lobo de Fenrir e os eventos de Ragnarok, aos quais o Duque prestava uma especial atenção. N
pesar da epistemologia deste aspecto ser necessariamente um assunto a tratar com algum desvelo, esta representação heráldica trata-se muito provavelmente da primeira figuração de um brasão pertencente à Nobreza portuguesa. Antes do brasão de armas primitivo dos Sousa, encontram-se apenas representações de armas reais. Este dado está por sua vez intimamente relacionado com os Sousa terem a sua ascendência nos reis Godos, e sempre terem sido conhecidos por serem exímios guerreiros no campo de batalha. Não obstante o contínuo trabalho de verificação de fontes, hoje é bem aceite que D. Mendo de Sousa, o Sousão, integra as tropas que ganham a Batalha do Cabo Espichel em 1180, ao qual António Machado de Faria faz remontar a caderna dos Sousões em Origens da Heráldica Medieval Portuguesa, aquando da sua publicação em 1944.
omeadamente, ao mito que relata como Tyr, precursor do deus da Guerra Odin, perde a mão direita depois de Fenrir se soltar ao final de incontáveis dias e noites ao jugo de uma corrente. Fenrir estava preso devido à estonteante velocidade do seu crescimento, de tal forma que nem os deuses o conseguiriam dominar caso a fera se soltasse. Por esse motivo, os deuses nórdicos haviam decidido manter preso o animal. Contudo é chegado o dia em que, pelos seus próprios meios, Fenrir se consegue soltar. Tyr tentou dominar a monstruosa besta, mas o Lobo lançou-se num ataque raivoso contra o deus decepando-lhe a mão direita.
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O Quarto Múltiplo
Onde tudo é serial.
«Se aqui, numa das câmaras do meu reino, eu consegui multiplicar tudo? Eu não seria um pouco do que era o filho de Deus com peixe e pão? Eu quero ser, como ele, o grande criador dos infinitos.»
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ponto se conecta com este novo dado científico e que seria no século XVIII a área mais próxima de explicar esta realidade: o “Estado de Graça” da religião Judaico-Cristã e do Gnosticismo, ou o “Nirvana” do budismo e do hinduísmo e outras religiões dármicas, atingidos através da privação prolongada do prazer ou da auto-punição.
o século XVIII, a Alquimia estava ainda longe de ser vista como uma ciência esotérica e alternativa. Na realidade, a físico-química e o estudo dos saberes místicos e ocultos aconteciam enquanto duas realidades paralelas. A Química, na medida em que as reacções obtidas a partir da mistura de diferentes elementos, se tratava de um processo bastante semelhante ao que se faz hoje em laboratório. Já a Física, era vista através de um prisma com foco numa vertente mais teosófica quando as coisas careciam de explicação científica.
Mão dos Mistérios é relativa a todos os que entram nos mistérios em geral, e na alquimia simboliza a fórmula de preparação da Tinctutram Physicorum: o peixe representa o elemento mercúrio, enquanto que o mar em chamas no qual o peixe nada encontra a sua correspondência no elemento do enxofre. Finalmente, cada um dos cinco dedos da Mão do Filósofo carrega o símbolo de uma entidade divina, as quais, após decifradas e combinados os elementos relativos a cada uma na ordem e proporções correctas, dariam origem à elusiva Obra Máxima. A Mão do Filósofo encontra também outras conotações e possíveis origens teosóficas, religiosas e teológicas, como por exemplo na Cabala onde esta figura representa a operação da Força única. Já na maçonaria esta representação simboliza a mão de um Mestre maçon com a qual este levanta o Construtor da Casa Divina. R
primeira evidência da Mão dos Mistérios ou Mão do Filósofo que se conhece trata-se de uma água-forte encontrada no livro «Die Hand der Philosophen», de Isaac Holland’s - nome ao qual não foi até hoje possível atribuir uma personagem histórica definitiva - e que apareceu pela primeira vez no final do século XVI sendo amplamente reeditada e publicada durante todo o século XVII dado o crescente interesse pelas ciências alquímicas. Parcelsus, médico e alquimista suíço de 1500, na sua obra «De Tincturam Physicorum», que relativamente à preparação da Grande Obra ou Obra Máxima da Alquimia - uma mistura que teria a capacidade de transformar qualquer elemento em ouro e curar qualquer doença conhecida também como Pedra Filosofal, Panacêa, Elixir da Vida, Tinctura Physicorum, etc. - faz notar o seguinte: “(...) lembra-te que apenas aquele que desejar com todo o seu coração a irá encontrar [a tinctura physicorum], e apenas àquele que bater com força suficiente, a porta será aberta.”
elativamente às suas origens, é muito possível que a mão islâmica hamsá (árabe: , ةسمخ chamsa – que significa “cinco”, em referência direta aos cinco dedos de uma mão), esteja também na génese primitiva da Mão dos Mistérios. Importa notar que embora o Alcorão proíba expressamente o uso de amuletos, a hamsá constitui a excepção à regra e é facilmente encontrada entre seguidores do islamismo. Por último, as expressões caminho da mão esquerda (via sinistrae) e caminho da mão direita (via dexterae) são uma dicotomia na tradição ocidental entre duas filosofias opostas: a individualidade e o altruísmo - e cujas raízes remontam à fundação da religião judaico-cristã, apesar de apenas no século XIX estes termos terem sido propostos por Helena Blavatsky.
primeira parte desta passagem ilustra de forma peremptória um processo ao nível da física quântica que eventualmente poderia desempenhar um papel fundamental na obtenção do produto final da Grande Obra, como a interferência dos tipos de ondas electromagnéticas Alfa, Gamma, Beta, Delta e Theta emitidas pelo cérebro e já comprovadas pela ciência. Ou, eventualmente, algo que em algum
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O Quarto De Funambule
Onde tudo está em equilíbrio.
«Gostaria de lembrar o fortuito equilíbrio da felicidade e ver, ao meu redor, segurar objetos num fio suspenso acima do vazio.»
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verdadeiramente feliz, uma vez que estes tendem a toldar a razão, e logo fazer o homem perder-se enquanto escravo das suas próprias emoções. D
ideia ocidental de um equilíbrio transversal a todas as áreas da vida tem o seu início na sequência da conquista da Pérsia e demais territórios a Oriente, com as correntes filosóficas do espírito greco-budista que germinaram nas fundações estabelecidas por Alexandre, aquando da formação dos Impérios Romano e Bizantino. Foi neste cenário de troca e partilha de saberes que se fundiram as mais diversas culturas do oriente, ocidente e Norte de África, para formar uma sociedade marcada pelo ecletismo em toda a sua extensão. E
. Pedro, consciente do delicado equilíbrio do que se pode entender como um estado de felicidade, ainda que muito primasse por manter em consonância proporcional todos os aspectos da sua vida, não estava, como qualquer pessoa, livre de se ver surpreendido pelas suas próprias emoções de tempos a tempos face a um evento inesperado. E conhecia tanto e tão bem a importância dessa consciência de si, que muitas vezes desejava efectivamente a visualização honesta desse equilíbrio, de forma a não ser surpreendido pelos seus próprios impulsos. O Duque não era decididamente um homem de fretes, o que fazia, fazia-o apaixonadamente. Seja lá porque razão for, o facto é que D. Pedro não teve problemas em relegar as convenções da boa conduta social por ocasião do casamento de D. Maria I e D. Pedro III, sendo por isto exilado da côrte e destituído do cargo de Regedor de Justiças do Reino no seu último ano de vida. O
sta ideia de equilíbrio que permeava todo o pensamento e lógica dos revivalismos clássicos pós-Renascentistas no Iluminismo Racionalista do Século das Luzes, e que visa a direção de um modo de vida harmonioso, encontra uma das suas principais fontes no epicurismo do filósofo ateniense Epicuro de Samos. O epicurismo defende o prazer e evitamento da dor como os dois principais alicerces da busca da felicidade, e é uma das orientações da expressão Carpe Diem (do latim carpire, traduzido como colhe o dia ou sofre o dia) nas Odes do poeta romano Horácio, mais tarde imortalizada nos tempos modernos por Robin Williams em O Clube dos Poetas Mortos, e sendo esta a orientação desta filosofia mais cara ao entendimento do Duque.
Senhor de Lafões estava bem a par das normas vigentes na côrte portuguesa oitocentista, e logo provavelmente a extinção de todas as velas do Palácio do Grilo no momento em que na rua passava a carruagem nupcial da recente realeza portuguesa, não foi certamente um mero acaso. Nem ao mesmo tempo uma perda momentânea da razão e do controlo numa pulsão de fúria incontida. Terá sido sim, uma decisão pensada e em consciência, em que D. Pedro terá escolhido marcar a sua posição da forma mais honesta e elegante que lhe foi possível, afastando-se de algo que o perturbava no mais íntimo do seu ser: o casamento da sua sobrinha e futura rainha de Portugal: D. Maria I, a Princesa do Brasil. Não sendo este o motivo, apenas as paredes do Palácio poderão saber qual a razão por detrás da extinção das luzes à passagem da carruagem real.
outra orientação da corrente filosófica Carpe Diem é o estoicismo. Ao contrário do epicurismo, cuja máxima propõe o prazer moderado e reflectido como segredo da felicidade - atingindo assim um estado de ataraxia plena e tornando o indivíduo imune aos desígnios implacáveis do destino -, o estoicismo defende um estado de apatia enquanto premissa suprema da felicidade como forma a estar imune a estas vicissitudes da vida, i.e., o medo da morte. No estoicismo, defende-se portanto que ser indiferente aos males e às paixões é a única forma de poder ser
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O Quarto Das Ervilhas
Onde tudo é bolinhas.
«Que vertigem e que piada que a infinidade desses discos projetou em todas as partes desta sala! Esse motivo é definitivamente uma expressão de alegria. Algo de infância, loucura ingénua e libertadora.»
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m fenómeno que raramente se manifesta através do espírito inteligente quando este aceita a sua morte terrena inesperada, é uma certa leveza de escárnio no olhar a vida. Se tiver tempo e condições para tal, há um momento em que a tristeza e a raiva são substituídas por uma aceitação graciosa das circunstâncias - mas que nunca se rende. N
lores do sacrifício, do altruísmo, do dever e da coragem. D. Pedro não se terá sentido menos audaz do que os seus antepassados Vikings, pois não carecia de inteligência ou erudição, estava bem ciente dos riscos que corria, e sabia bem tudo o que tinha a perder. Ainda assim, fazendo-o da mais limpa, livre e absoluta espontânea vontade, não hesitou em arregaçar as mangas e atirar-se aos trabalhos. E
a página 22 do Elogio Fúnebre a D. Pedro Henrique de Bragança, Frei Jozé da Conceição Monte recorda uma ocasião particular do que se seguiu do pós-terremoto: “(...) atonitos, levantou o Duque a voz, dizendo a Deos: Aonde estão, Senhor, as vossas antigas misericórdias? Assim nos castigais? Assim vos vingais das offensas que vos temos feito? Salvai a todos, e seja eu só o castigado. (...)”. Meses depois, D. Pedro adoece fatalmente, com quatro anos de vida para viver. Esta doença, é o mais certo, terá sido contraída no rescaldo do 1º de Novembro de 1755, visto o Duque ter empreendido o seu tempo em reerguer a cidade não apenas do seu escritório de Ministro Regedor de Justiças do Reino com sede na Casa da Suplicação [atual Tribunal da Relação de Lisboa] no Terreiro do Paço, mas no meio de mortos e destroços, carregando pás, baldes de terra, e corpos sem vida. U
m 1760, a um ano de morrer e encontrando-se já o Duque bastante doente, é consumado o casamento entre os Príncipes do Brasil, o Infante D. Pedro III, «o Capacidóneo», e a sobrinha de ambos, D. Maria I, «a Piedosa», ainda que por via ilegítima o laço sanguíneo que unia o Duque à futura Rainha de Portugal e dos Algarves. Todas estas conjunturas terão levado D. Pedro, em determinado momento, a olhar em roda para um Salão todo ele relembrando as amarras forçosas das suas mais altas virtudes e da sua família, e perguntar-se, se de facto, tudo teria valido a pena. Fernando Pessoa viria a responder a essa pergunta um século depois com um dos seus mais célebres poemas, «Mar Português». P
or outro lado, essa mesma Sala, com esses mesmos motivos que lhe relembravam os seus sonhos de infância, traziam ao Duque um aconchego de saudade, indissociável que era este signo das memórias que cresceu a ser recordado sobre a história e feitos da sua família. Há um sentimento catártico e libertador nas palavras de D. Pedro, que todavia parecem não se deixar perscrutar no seu sentido mais intrínseco. Talvez propositadamente.
ma das leituras possíveis e prováveis da caderna de crescentes de prata é, além do dado adquirido de que cada um dos quatro crescentes representa um castelo tomado em batalha contra os Mouros na qual participaram os Sousa, este símbolo constituir também uma evocação à cruz de Cristo, lembrando os va-
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O Quarto Real
Onde alguém é rainha ou rei.
«No mínimo, a vida negou-me o direito de reinar sobre o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, de ambos os lados do mar da África, para ser o Duque da Guiné e a Conquista, da navegação e do comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia. Portanto, dediquei-me a este pequeno e singular reino do Grilo. Este quarto é o meu quarto. A partir daí, eu reino sobre os meus sonhos.»
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cos em duas bolinhas elípticas. Há sem dúvida um arquétipo partilhado em toda esta conjuntura visual da anatomia dos grilos que os fazem um insecto, contra o costume, de uma aparência não só intrigante, mas também simpática. Claro que há espécies e espécies de grilo. Por exemplo, o ralo ou grilo-toupeira-europeu porventura não terá uma aparência tão amigável quanto o grilo-doméstico. N
ão é claro de onde vem o fascínio de D. Pedro por este curioso insecto. Os grilos trazem na história partilhada da sua espécie todo um leque de lendas e presságios do folclore antigo e medieval. Ao contrário dos seus primos gafanhotos da família dos ortópteros, que se podem diferenciar facilmente por terem antenas mais curtas e grossas e o formato do corpo predominantemente mais oblongado, os grilos não estão associados a nenhuma praga bíblica. Nem tampouco existe alguma conhecida associação entre os grilos e uma conotação menos agradável como exemplos de indigência no reino animal - ao contrário das suas parentes cigarras - que ganharam a fama de preguiçosas com a história A Cigarra e a Formiga nas Fábulas de Esopo (sec. 5 a.C), mais tarde adaptada em verso por La Fontaine no século XVII. O
a China, era e em parte ainda é um costume da tradição os grilos serem mantidos enquanto animais de estimação. São transportados em gaiolas próprias pelo seu agradável canto, e também por serem considerados poderosos ímanes da boa fortuna. O poeta Du Fu (sec. VIII) da dinastia Tang, o maior poeta chinês ao lado de Li Bai (porém com uma vertente de poesia distintamente mais filosófica), escreveu um poema mais tarde traduzido por Jerome P. Seaton, mas do qual eventualmente D. Pedro poderá ter tido conhecimento graças aos seus alicerces linguísticos e atividades comerciais oficiosas. O poema de Du Fu deixa transparecer a venustidade da melancolia no canto deste animal: «House cricket ... Trifling thing. And yet how his mournful song moves us. Out in the grass his cry was a tremble, But now, he trills beneath our bed, to share his sorrow.”
s grilos são criaturas que parecem transportar no seu código genético uma qualquer naturalidade do desenho oitocentista europeu. Talvez sejam as suas antenas finas e longas com semi-volutas nas extremidades em contraste com a pequenez do seu corpo castanho escuro e cabeça redonda com grandes olhos pretos circulares, mas com pernas curtas escarpadas de linhas simples e segmentos do tronco aerodinâmi-
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O Quarto Do Banho
Onde tudo é dedicado ao banho.
«Tomar banho é um prazer que deve estar no centro dos nossos hobbies. Talvez eu devesse pensar em ter a arte de dormir e me imergir na mesma linha hierárquica. A água não é um pouco o material dos nossos sonhos?»
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m 1760 a Torre de Belém encontrava-se cerca de 50 metros pelas águas do Tejo adentro, visto que as margens do rio iam quase até aos Jerónimos. Também o Palácio do Grilo se situava bastante mais perto do limite de terra que une e separa as duas bandas de Lisboa, o que significa que D. Pedro teria as suas janelas de sacada do corpo oeste a uns escassos metros do mais extenso curso de água da Península Ibérica. Este curso que desagua no Atlântico e viu partir, regressar e também naufragar quantas naus e caravelas globalizaram o mundo numa época em que Portugal era - até há relativamente pouco tempo - dono de literalmente metade da Terra por conhecer, dava vista para a glória dos Descobrimentos Portugueses, com tudo o que esta empresa teve de bom e de mau, e dava também vista para a eterna grandiosidade poética e natural do Mar da Palha. C
ontudo, a praia do Terreiro do Paço certamente trazia uma saudade pesada ao espírito do Duque. Apesar de toda sua beleza, acordar todas as manhãs com vista para as águas que lhe levaram o pai numa fatídica noite de vendaval a 13 de Janeiro de 1724, não foi certamente um processo de luto livre de adversidades. D. Pedro tinha apenas 5 anos quando o seu pai morreu de forma trágica por afogamento em plena flor da idade, aos 24 anos. Esta tragédia ocorreu quando se voltou o escaler em que D. Miguel atravessava o rio para a outra banda de Lisboa. O corpo do primeiro Duque de Lafões foi encontrado apenas muitos dias depois, e a cerimónia fúnebre aconteceu a 5 de Fevereiro. O
pai de D. Pedro, de seu nome D. Miguel de Bragança e primeiro a usar o título de Duque de Lafões, foi legitimado por carta real com apenas 4 anos enquanto Infante do rei D. Pedro II. D. João V o reconheceu por irmão e ordenou que fosse dado ao Infante o título de Alteza, fazendo também com que se casasse com a herdeira da Casa de Arronches, mãe de D. Pedro e seus irmãos.
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O Quarto Do Tarot
Onde objetos e seres escapam da gravidade.
«Os segredos das cartas de tarot devem ser expostos e projetados no futuro. A beleza hipnótica deste jogo e das suas figuras podem ser apenas um convite para questioná-lo. Quem somos ? Para onde vamos?»
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o Tarot de Marseille, o baralho clássico mais utilizado na astrologia ocidental, o Arcano XVIII, Arcano da inteligência instintiva e dos ciclos vitais e emocionais, é o arcano que rege a Carta da Lua. A Carta da Lua convoca uma pluralidade de significados simbólicos através dos seus signos e figuras, sendo que estes têm leituras ligeiramente diferentes consoante quem as interpreta. Navegação, conquista da verdade, irracionalidade, experimentação, instrução pela dor, inteligência instintiva, recetividade, medo, sensibilidade, penumbra e elementos da natureza são apenas algumas das palavras chave em estreita relação simbólica com o plano lunar na Astrologia. Nesta carta do Arcano XVIII do Tarot de Marseille podem ver-se quatro elementos principais distintos que a compõem: Em primeiro plano, um lagostim, que se encontra num tanque com água. Por vezes o lagostim é referido como caranguejo - pela ligação óbvia com a constelação do horóscopo solar. E
os humanos têm vindo a atribuir ao satélite que orbita o terceiro planeta desde há mais de 4 mil milhões de anos.
Lua Vermelha ou Lua de Sangue eleva-se no céu em finais de Outubro, e trata-se da lua cheia imediatamente a seguir à Harvest Moon. O seu nome não deriva de uma mudança de cor do satélite natural da Terra, mas sim do banho de sangue com que a terra ficava lavada quando os caçadores paleolíticos levavam a cabo as emboscadas e perseguições outonais para aprovisionar mantimentos para o Inverno. Ao fundo, figuram duas torres que podem ser vistas como o complemento final para um entendimento do processo do inconsciente na mente humana. Ouspensky encontra no conjunto das figuras um simbolismo claro relacionado com o trânsito e passagem dos desafios do indivíduo. P
or fim, figura no plano superior o astro principal numa dualidade em que é simultaneamente lua cheia e quarto crescente. O simbolismo lunar encontra-se presente em virtualmente todas as culturas estando associado à imaginação, intuição e sensualidade, sendo que em cada uma é caracterizado por diferentes atributos específicos.
m segundo plano, podem ver-se dois cães que parecem estar a uivar ao astro noturno consagrado à deusa romana da caça, Diana. Assim, é fácil perceber o elo de ligação entre o lobo e a conotação do instintivo que
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O Quarto Duplo
Onde nós somos dois.
«Eu moro com o meu duplo (um cavalheiro charmoso, um companheiro fiel). Este quarto deve ser como a minha doce loucura, estar aqui e noutros lugares ao mesmo tempo, no mesmo quarto.»
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e alguma forma, é raro o ser humano que, em última análise, não é habitado por - pelo menos - duas pessoas, sendo que este hiato no espectro de uma personalidade encerra em si as duas faces de uma mesma moeda. Há pessoas em que estes versos se evidenciam de forma mais pronunciada, enquanto que para outras, o duplo que habita o âmago do corpo físico e social é mantido onde se determinou na vida de cada um que houvesse espaço para caber apenas a sua imensidão: o espaço interior. P
oderá perceber-se, pelos apontamentos de D. Pedro, que o seu duplo teria um pouco mais de espaço para respirar na pele o mundo exterior do que a maioria das pessoas. Esta oportunidade particular, foi possibilitada maioritariamente pelo facto de D. Pedro ter decidido transformar o Palácio do Grilo num reino onde coubesse espaço para quantos seres interiores em si houvessem se projetarem no mais alto dos céus que a terra pudesse sustentar por cima do seu Palácio. E no entanto, pelos recantos de toda esta espaciosidade, as diferentes facetas da mesma personalidade acabam por encontrar a sua convergência sem nunca se afastarem demasiadamente, em privado ou em particular, da mesma pessoa, como se poderá descobrir mediante uma leitura atenciosa dos seus registos literários. Este elemento é com efeito indicador de que a personalidade dominante no 1º Duque de Lafões era e sempre foi a racional - pois certo é que se trata da única que pode conter os excessos nas valências das outras. C
onhecendo-se a admiração de D. Pedro pelas hipóteses que se descobrem entre os princípios heurísticos de Leibniz, é difícil não encontrar neste traço determinante da estrutura de qualquer personalidade - isto é, da necessidade de compreender o emocional no racional, por oposição ao contrário - uma reverberação do Princípio da Continuidade postulado pelo filósofo e matemático alemão em finais do século 17, e que toma por base os trabalhos de Nicolau de Cusa e Johannes Kepler, determinando ultimamente que “o que quer que seja que possa suceder no plano finito, irá também suceder no plano infinito.”
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O Quarto Do Polígono
Onde os ângulos são multiplicados.
«Quero empurrar o hábito ainda mais e em todas as áreas. Por que os quartos têm quatro paredes. Não podemos construir mais?»
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ntre o vasto arquivo bibliográfico, documental e literário de D. Pedro Henrique de Bragança, pode descobrir-se um particular interesse pelas premissas que levaram às ideias inovadoras presentes no tratado de sete volumes «De Aspectibus or Perspectiva» (The Book of Optics ou Kitāb al-Manāẓir no original árabe), elaborado por Ibn al-Haytham (965–c. 1040 AD). Este autor é tido de forma incontornável como uma das mentes mais brilhantes da cultura árabe medieval, sendo que no ocidente o seu nome traduz para Alhazen ou Alhacen, e é através da análise de várias passagens anotadas entre os cadernos de D. Pedro que se podem perceber os pontos de contacto com alguns temas concretos do interesse do Duque. U
nquanto que na Optica euclidiana é sugerida a teoria da emissão (também conhecida como teoria dos raios visuais ou teoria do cone visual e sustentada também por Galeno entre outros autores), na qual o olho humano emite por via de raios de luz aquilo que é percepcionado visualmente - na obra de Alhazen esta teoria é empiricamente revogada, sendo substituída pela teoria moderna e que se trata hoje do modelo aceite que explica a percepção visual de uma perspectiva em que o olho não emite, mas sim absorve o espectro de luz reflectido nos diferentes objectos que vemos - desta forma captando aquilo que entendemos como imagens visuais. C
uriosamente, um dos grandes pensadores que influenciaram o trabalho de Alhazen foi Aristóteles, que muitos séculos antes considerou não ser razoável pensar-se que o olho poderia emitir o que que fosse que pudesse atingir até as estrelas. Foi esta a célebre observação que veio a inspirar Ptolomeu a postular um problema matemático que muito apelava ao faro de D. Pedro para as coisas da mente e para o qual Alhazen viria a dar resposta cerca de um milénio depois, ficando por isto tanto a solução como o problema conhecidos como Problema de Alhazen. Enuncia este postulado o seguinte: “Que ponto, à superfície de um espelho esférico, pode refletir um raio de luz de uma vela para o olho do observador?”
m destes temas, e talvez o que despertaria porventura a maior curiosidade no Duque de Lafões para o estimular da mente na percepção do real, tratava-se da questão do ponto de vista do observador. Alhazen contesta nesta sua magnum opus - que observa uma preponderante influência no que ao estudo da ótica, física e matemática na Europa entre os séculos XIII e XVII diz respeito - o que se entendia do estudo da visão até à data, mais especificamente a sugestão de Euclides proposta para atender à sua hipótese formulada para atender a este tema.
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O Quarto No Palco
Onde o nosso sono é um teatro.
«Um dia, eu gostaria de ter a certeza de que os meus sonhos são vistos pelos outros e, para fazer isso, é melhor do que me colocar num palco para dormir e sonhar na frente de quem vai querer olhar para mim?»
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ravura e resiliência. Dois conceitos caros a qualquer homem que se tenha já medido pelo tamanho da sua capacidade. Que tipo de existência se pode apurar numa solidão que não é vista é uma pergunta que se parece não justificar com uma resposta imediata. Um homem sozinho numa ilha é mais só do que aquele que chega a casa do trabalho para uma mesa onde é a sua exclusiva companhia? Onde se pode, por exemplo aqui, encontrar a dignidade de uma solidez que não é vista por ninguém sem ser o próprio? É muito possível que exista, mas se existe de verdade se ninguém lhe tiver conhecimento, é uma efetivamente uma questão que convida à reflexão. F
bem saberia o que se delineava à sua frente quando escolheu actuar na reconstrução de Lisboa in situ sem se deter pelas amarras da doença que prolifera nos domínios dos corpos sem vida. D
espercebidos não terão passado com certeza os ensinamentos sobre a teologia natural deixados por Tomás de Aquino no refere à questão da solidez e de um inquebrável espírito para que esta matéria não chegasse sequer a constituir uma escolha. A síntese de conhecimentos unificada no corpus literário de S. Tomás de Aquino debruça-se sobre uma firme tentativa de integrar a escola aristotélica e os princípios do cristianismo, nomeadamente partindo das premissas sobre a ética, lei natural, metafísica e teoria política que se poderão encontrar numa das suas obras mais célebres: a obra “Suma Teológica” (ou Summa Theologiae em latim), que trata igualmente dois mistérios insignes - a natureza de Deus e a natureza do homem. Perguntar-se-ia o Duque desta forma, qual o valor da sua solidão, se não se pode ver nem palpar o aço da sua solidez.
oi no âmbito deste pensar o que é cada coisa com a justeza do seu determinado sítio, que o Duque de Lafões se permitiu conseguir um pensamento marcante num dos momentos decisivos da sua vida: quando se viu perante uma escolha que ultimamente nunca o chegou a ser. Ou seja, não sendo D. Pedro uma personalidade de inteligência estranha à imperatividade da força das coisas, muito
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O Quarto Do Alvo
Onde estamos em jogo?
«O olho de um canhão ou o nariz de uma flecha são juízes poderosos. Eles continuam a perguntar-me quem eu sou e o que estou a fazer. Eles forçam-me a colocar-me. Eles revelam-me.»
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ao Racionalismo Iluminista. Sem esquecer o terceiro pilar de fundação que sustentou a existência dos dois primeiros: que se trata do patrocínio das colónias.
endo mais ou menos iminente, a morte é sempre inesperada. E estar preparado para enfrentar o derradeiro suspiro é um pouco como um actor entrar em palco: talvez nunca ninguém esteja totalmente. D. Pedro viveu a sua vida (1718-1761) num período marcante da História de Portugal. Um período de profundas transformações culturais que se deveram principalmente a dois motivos chave: P
pesar da sua popularidade, não foi o vinho do Porto, as especiarias trazidas da Índia, ou o azeite português que garantiram os fundos para agir sobre a reconstrução de uma cidade capital europeia completamente destruída. Não fossem as transbordantes naus e caravelas que conseguiram atravessar o escorbuto do Atlântico com o ouro e pedras preciosas do Brasil - viabilizando a obsessão fruto da promessa religiosa de D. João V e que viria a ser a mais emblemática construção portuguesa deste período - o Convento de Mafra - Lisboa poderia facilmente ter-se visto entregue uma vez mais ao domínio espanhol do século anterior. U
or um lado, devido às novas realidades político-sociais que germinaram no ambiente pós-Restauração da Independência, encontrando terreno fértil no Absolutismo Joanino dos reis D. João V e o seu sucessor D. José I. O medo da guerra que envolveu a Sucessão Espanhola e colocou Portugal contra Espanha e contra a França na defesa do lado anglo-saxónico do Imperador Carlos VI pelo trono espanhol - posição esta oficializada pelo tratado de Methuen em Dezembro de 1703 - contribuiu particularmente para a agitação no tecido social português. A paz com França foi assinada em 1713, mas Espanha e Portugal só voltaram a estabelecer relações cordialidade diplomática dois anos mais tarde, em 1715. Por outro lado, este período de profundas transformações culturais na sociedade portuguesa oitocentista, deveu-se também ao panorama de pós-Terremoto que transformou Lisboa no centro europeu de artes e arquitectura moderna, assim como ideias de vanguarda onde confluíam estéticas, inovações tecnológicas, avanços científicos e correntes de pensamento filosófico, descobrindo a sua expressão livre através de uma nova arquitetura. E
m último elemento importante a destacar é o facto de D. Maria I ser a primeira rainha reinante na História de Portugal, e as implicações sociais que essa realidade poderia ter da perspectiva do futuro rei consorte - um papel que D. Pedro esteve toda a vida preparado para desempenhar. De repente, numa vida marcada por um período de evolução histórico-cultural e político-social como nenhum outro, a iminência da Guerra, as constantes batalhas na fronteira com Espanha, o terremoto que deixou Lisboa reduzida a uma cidade fantasma de destroços e ruínas, as novas realidades do pensamento iluminista que vieram ser a matriz de uma nova cidade, o cargo de Regedor de Justiças do Reino, a perspectiva de ser Rei - e de repente... a morte. Um fim incontornável antecipado, que traz consigo todas as questões existenciais quantas num homem possam caber. Quem fui e quem sou eu nunca são perguntas fáceis de responder, muito menos quando se sabe que o reflexo que o espelho devolve, terá uma existência com os dias contados.
stes foram os dois principais elos catalisadores de uma realidade cultural de profundas mudanças de paradigma que juntava um cosmopolitismo tão globalizado e atualizado quanto se conhecia, com os pilares científicos, culturais, artísticos e humanísticos que serviam de base
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O Quarto Forte
Onde tudo é vitória.
«Imagino um quarto dedicado à solidez, onde tudo não passa de pedra e mármore, ferro e granito. Porquê? Porque poderei deitar a penugem mais macia do mundo e adormecer ... bem e verdadeiramente protegido.»
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m 1797, o Conde Rumford provou, após mais de trinta anos de trabalho intenso, que quantidades infinitas de acção mecânica geram por seu turno indefiníveis quantidades de calor, se se tiver por princípio uma parte fixa da substância em processo. Ainda que apenas no ano de 1824 Sadi Carnot viesse a postular a Segunda Lei da Termodinâmica, em meados do século XVIII já havia um fino tecido na comunidade científica e filosófica que se debruçava sobre fazer a ponte entre os princípios alquímicos da transformação dos estados da matéria e a sua correspondência científica, hoje compreendida nos domínios das disciplinas da Física e da Química.
gurações ou microestados possíveis num objecto, isto é - de quantas maneiras se podem as partículas (sejam átomos, íons ou moléculas) subdividir em diferentes níveis energéticos quantizados, revela-se portanto como o misticismo fundamental das artes alquímicas explicado por um conceito, na sua essência, quase intuitivo. I
nteressante para perceber a visão de D. Pedro sobre a sua acepção de solidez será notar que o estado mais permanente da matéria é o estado sólido - no sentido em que compreende a maior estabilidade molecular ao longo do tempo tendo em conta a acção de factores externos como por exemplo a temperatura. A solidez é, ou de alguma forma parece ser no entendimento do Duque, a tradução mais fiel possível que um espaço pode ter de um conceito de conforto verdadeiro. Um conforto que parte do interior, e que não nasce exatamente de uma imperturbável paz na alma ou da ausência de desejos não presentes. Parte sim de uma representação espacial de ética e integridade expressa através da arquitetura.
título ilustrativo e num plano um pouco mais concreto, que se insere como componente principal da Segunda Lei da Termodinâmica, surge a entropia. O conceito de Entropia, que se pode definir por ser uma grandeza termodinâmica que avalia o grau de liberdade molecular de um sistema - sendo por esta razão indissociável do número que representa a quantidade de confi-
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O Quarto Das Monades
Onde o quarto contém uma infinidade de quartos.
«Este quarto será leibniziano e fará parte de um todo que conterá tudo.»
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á um aspeto na personalidade do 1º Duque de Lafões que não deve em qualquer caso ser tomado com leveza de entendimento, visto constituir o alicerce central de tudo quanto podia existir na integração da sua vida: Deus. Apenas recordar os seus testemunhos actos de generosidade e boa vontade para com o próximo. O
mónades” remete para o ideário de Gottfried Wilhelm Leibniz, que terá sido um influente filósofo alemão, pelo qual D.pedro nutria uma intensa admiração. Foi um dos maiores defensores do racionalismo do século XVII, e a sua filosofia define-se através de um só conceito-chave: a mónade. C
ada mónade apresenta-se como um mundo próprio, distinto de quaisquer outros. Sendo estas substâncias consideradas os “átomos da natureza”, segundo a filosofia Leibniziana, cada mónade possui em si a representação de todo o universo, e uma entidade divina (como deus) conseguirá, através de mero cálculo, decifrar o que se passou, ou irá passar em todo o cosmos. Com esta referência a deus, é ainda mais evidente a razão de tal admiração pelo filósofo Alemão em questão. O
s supracitados atos caridosos refletiam a bondade do jovem duque. Ao longo da vida deste, salientam-se diversos momentos onde a sua benevolência, e altruísmo, foram evidentes: em 1749, terá vestido todos os prisioneiros que apenas traziam “trapos esfarrapados”, despendendo de uma porção considerável da sua riqueza; após o marcante terramoto que abalou Lisboa no ano de 1755, o duque foi avistado a acudir à reedificação da metrópole, socorrendo os vivos e enterrando os mortos. O 1º Duque de Lafões, sagra-se assim uma alma bondosa, evidenciando a sua educação cristã, e as suas notáveis práticas religiosas. No meio das diversas anotações do Duque, notamos uma inclinação vincada para o mundo da filosofia. Esta não é exceção. “O quarto das
referido arrebatamento que D.Pedro vivenciava, prova-se pelo facto de que com uns meros 14 anos, o petiz rapaz ter sido encontrado na biblioteca do seu palácio a ler entusiasticamente as obras Leibnizianas, destacadas entre os seus favoritos escritos literários.
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O Quarto Voador
Para onde voamos.
«Sempre me pareceu que as nuvens formavam um piso, se não uma cama, onde caminhar e se esticar. Eu gostaria de um quarto inteiramente feito dessas nuvens. Eu gostaria de um quarto que flutue lá em cima no céu como uma nuvem.»
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palácio dos sonhos. Palácio onde a imaginação voa. Onde o tempo voa. Onde, se possível, D.Pedro queria voar.Nos seus apontamentos, encontramos um forte e acentuado fascínio por tudo o que pairava. Descrições de pássaros, folhas de árvores que vagarosamente caíam, gotas de chuva que descendiam nos dias mais cinzentos e dançavam com as rajadas do vento. T
alvez seja daí que a sua obsessão pelo sonho tenha brotado. Enquanto sonhamos somos verdadeira e puramente livres. Nos sonhos não existem regras. Nos sonhos podemos voar. A religião foi um tema central na educação do 1º Duque de Lafões. Tendo crescido rodeado de parafernália cristã, era habitual na sua juventude contemplar as diversas figuras católicas que remetem para o onírico. Anjos, Santos, e a própria ideia e conceito de “céu”, representam um mundo etéreo onde a felicidade é garantida. Onde tudo paira na infinidade das nuvens.
pesar de ter crescido num inegável berço de ouro, D.Pedro sempre enfrentou diversas adversidades a nível psicológico. Nos seus escritos mencionava frequentemente essa conjuntura mental pouco favorável. Muito provavelmente fruto da sua inteligência, o jovem lidava com inquietações e preocupações diárias que tornavam o seu quotidiano, por vezes, triste e ansioso. Deste modo, é evidente o porquê do Duque se refugiar no mundo dos sonhos. As fantasias irreais características desta realidade alternativa, demonstraram ser o escape perfeito para uma mente inquieta como a de D.Pedro.
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O Quarto Dos Reflexos
Onde as paredes, os móveis e o teto são espelhos.
«Serei duplo, triplo, quádruplo e assim por diante. Você também será.»
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o comtemplar um espelho, somos encarados pela mesma face que encaramos. Observamos a nossa própria pessoa. Desde o renascimento, ou da corrente artística barroca, que os espelhos ganharam extrema relevância no mundo da arte. Sendo representados, frequentemente, para ilustrar algo com pendor negativo: luxúria, vaidade, orgulho. Porém, algumas qualidades também foram, ao longo da história, associadas ao reflexo: conhecimento pessoal, verdade, eloquência... D
.Pedro sempre descreveu (nas suas notas) a sua própria imagem com orgulho. Não era um homem vaidoso. No entanto, mencionava regularmente a importância de apresentar um físico limpo e cuidado. Segundo o 1ºDuque de Lafões, ser bem-parecido seria fulcral para a vida de uma pessoa: “Não existe qualquer adversidade que possamos sofrer devido a deter uma boa aparência”. S
agrou esta confiança na sua imagem face ao sucesso em enamorar a charmosa Luísa Clara de Portugal, com quem nunca casou. Mesmo sem núpcias ou anéis, esta união originou Ana de bragança, sua filha. Fruto, talvez, do seu admirável intelecto que intimidava qualquer indivíduo comum, Pedro Henrique de Bragança levou uma adolescência solitária. O seu refúgio – o conhecimento, os livros, os estudos. Em falta – a interação social, as conversas, os debates, o convívio. D
entro desta divisão, como referido pelo mesmo, “serei duplo, triplo, quádruplo (...)”. Neste quarto, a solidão ficaria à porta. A tristeza mascarar-se-ia temporariamente e não teria lugar na eloquente mente do Duque. Com esta divisão do palácio, D.Pedro poderia escapar, momentaneamente, tanto quanto um pássaro enjaulado que leva os dias a contemplar um espelho, iludindo a solitude.
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O Quarto Échiquean
Onde tudo tem a ver com xadrez.
«O jogo de xadrez tem a elegância de não deixar nada ao acaso. Neste Palácio do Grilo que quero dedicar à sorte e aos seus sonhos, parece importante colocar o tabuleiro de xadrez nas paredes. Afinal, não é uma imagem de guerra e um reflexo miniaturizado do mundo? Ele também não é um sonho ou uma imagem?»
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pesar de uma origem controversa, desconhecendo-se, ao certo, o lugar e a data da criação do Xadrez, crê-se que terá sido na China, algures no século III a.C, que o célebre jogo terá sido desenvolvido. S
eria o jogo de eleição da sua família, mas apenas em 1749 é que D.Pedro Henrique de Bragança decidiu dedicar-se ao domínio do mesmo. Nesse mesmo ano, fora presenteado com um livro que mudara a sua perspetiva do jogo: “L’analyse des échecs” de Philidor. Este indivíduo seria o maior estratega de Xadrez que o mundo havia conhecido, e foi no livro em questão, que compilou o seu conhecimento e mestria da arte do jogo. Após concluída a leitura da obra, D.Pedro viu-se rapidamente enfeitiçado pela técnica, inteligência e paciência que eram necessárias para o domínio do tabuleiro enxadrezado. Representaria um campo de batalha, onde apenas e somente o melhor estratega sairia triunfante. N
as suas anotações, podemos encontrar várias provas de que o 1º Duque de Lafões passaria, muito do seu tempo livre, a praticar a sua perícia no Xadrez.Um tabuleiro de xadrez seria como que um reflexo da inteligência do jogador. “Das qualidades necessárias ao jogo de xadrez duas essenciais: vista pronta e paciência beneditina, qualidades preciosas na vida que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas.” (Machado de Assis)
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O Salão Habitado
Onde outros moram comigo.
«Eu escolhi construir um reino interior no Grilo e entrar na loucura dos sonhos e nas alegrias da solidão. Gostaria de saber que alguns deles estão comigo, moram comigo. Não importa se eles são invisíveis e provavelmente imaginários. Talvez este seja o ideal.»
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or muito que sonhasse, por muito que a sua imaginação fértil o transportasse para outros mundos, e este quisesse materializar estes pensamentos no Palácio dos Sonhos, haveria sempre algo que D.Pedro não conseguira ultrapassar: a solidão. Mesmo rodeado de família, a sua peculiar mente isolava o jovem Duque da maioria das pessoas. Isto resultou numa conjuntura psicológica de cariz complicado. “Ignorância é felicidade”, e este caso não fora exceção. N
este salão o 1º Duque de Lafões teria uma visão que ambicionava concretizar: este ansiava replicar o reboliço de uma casa cheia, o movimento característico de pessoas em convívio, e acima de tudo, um espaço onde a solidão não fosse bem-vinda. Quebrando a rotina, seria um salão que respirasse, com vida própria: Cinzeiros cheios, pratos servidos, vinho atestado, conversas a serem travadas, risos a pairar no ar. S
olidão não é o mesmo que estar sozinho. D.Pedro nunca viveu desacompanhado, e o palácio do grilo estava, frequentemente, ao rubro. Mesmo com companhia em todo o seu quotidiano, solidão era algo que inundava a sua mente. Talvez tenha idealizado este quarto numa tentativa de mascarar este sentimento, numa tentativa de se rodear ao máximo de pessoas, esforçando-se para racionalmente, escapar à armadilha que era o seu cérebro.
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O Salão Da Música
Onde tudo toca.
«Ao tocar um objeto ou uma parede, qualquer um deles, posso sentir-me subindo numa nota que posso dizer menor ou maior, ou seja, triste ou removida. Não posso tocar o real como tocaríamos um cravo?»
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ivaldi, Haydn, Sammartini, e nos seus términos anos, Mozart, foram todos alvo de grande admiração de D.Pedro. Em frente ao piano o Duque perdia horas, naquele que era um ritual diário, e uma constante luta por melhorar enquanto músico, característico do seu teimoso perfeccionismo. O
seu pai tocara piano desde que este era um recém-nascido, e o 1º Duque de Lafões prematuramente seguiu as suas pegadas. Porém, não era só os ruídos dotados de musicalidade que enfeitiçavam o jovem nobre: os sons da atarefada metrópole, o canto de um pássaro, a sonoridade das ondas, ou a melodia do vento, fascinavam D.Pedro. Esta obsessão resultou, em 1760, um ano antes da sua morte, num poema. “Ode à musicalidade” foi uma obra do Duque, que apesar de atualmente não existir sequer uma réplica, houve referência à mesma nas suas anotações. E
ste encantamento sonoro levou à criação imaginativa do supracitado salão. Aqui a vida faria música. Sendo que todos os mais triviais objetos iriam produzir sons, todo a divisão ganharia vida, tilintando, ressoando e ecoando os diversos ruídos. As tarefas mais mundanas seriam dotadas com uma específica energia.
lém de mobílias que chocalhavam e zumbiam, seria da intenção de D.Pedro, colocar o seu piano no centro da divisão, dando um especial destaque a uma das suas mais importantes posses. “Arquitetura é uma música de Pedras, e música, uma arquitetura de sons”. (Beethoven)
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O Salão Das Cortinas
Onde as cortinas estão fechadas.
«Gostaria de recordar, neste salão, a extrema curiosidade com que procurei, quando criança, vislumbrar o palco de um teatro atrás das suas pesadas cortinas de veludo. O que elas estavam escondendo? Que surpresa a tropa estava fazendo? Mesmo que essas cortinas ocultem apenas paredes, essas paredes serão surpresas.»
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ma cortina age como uma divisão para o desconhecido. Atrás da mesma, não temos qualquer consciência do que se encontra. Estes extensos véus que vestem a parede de noiva, foram introduzidos à europa, fruto de importação cultural do oriente, pela primeira vez no século XIII, em Inglaterra. Porém, a sua massificação só teve lugar no renascimento, e mais tarde, com a corrente artística do barroco. S
endo um vincado aficionado das artes teatrais, D.Pedro apreciava o mistério e o enigma que as cortinas dos palcos representavam. Como referido nas suas notas, quando era apenas uma criança, tinha como hábito perscrutar o que tinha lugar para lá do alto pano vermelho. “Um portal para outro mundo” pensava o mesmo. N
este salão, o sentimento de incógnita proveniente das cortinas em questão, era permanente. Com as mesmas a adornar as altas paredes do palácio, todos os cantos seriam como um jogo, uma charada, onde quem espreitasse fosse encarado com um espetáculo, um mundo novo, uma existência paralela.
mante do teatro, o 1º Duque de Lafões lia frequentemente sobre a história desta manifestação cultural, desde as suas origens, que remetam à Grécia antiga, à sua evolução e adaptação a novos estilos, modas e autores. A sua peça favorita, como dito pelo próprio: “a melhor obra teatral alguma vez escrita, a suprema criação de Shakespeare (a sua magnum opus), o pináculo do mundo da arte: “a comédia de erros”. Com imensa lástima sua, apenas lera a peça acima referida, nunca tendo oportunidade de observar uma rendição em palco, da mesma.
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O Salão Da Chuva
Onde está chovendo.
«A chuva é cara para mim e, com exceção do canto dos meus maravilhosos grilos, não conheço uma melodia mais contemplativa do que o crepitar nos telhados e contra a tela esticada com um guarda-chuva ou sombrinha. Durante os longos verões de Lisboa, para afastar a aridez, gostaria que chovesse continuamente nesta sala.»
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emetendo para a musicalidade do banal, tão apreciada por D.Pedro, a queda da água que tomba ritmicamente nos dias mais cinzentos, acalmava a mente agitada do Nobre. Observar a chuva no seu jardim, gota a gota, a embater no solo, era rotina. O
simbolismo deste salão, poderá evidenciar a turbulência psicológica do 1º Duque de Lafões. Mesmo durante os quentes e solarengos verões lisboetas, dentro desta divisão, a chuva seria perpétua. Este contraste evidencia um paralelismo entre o combate diário de D.Pedro, que tentava abafar a conjuntura depressiva onde se encontrava, e o resto do mundo, indiferentemente, prosseguia a sua vida. M
esmo com este simbolismo desfavorável, a precipitação oferecia uma particular tranquilidade e relaxamento ao Duque. Muitos dos seus surtos de criatividade e inspiração, tinham lugar enquanto este se encontrava a contemplar o fenómeno metereológico em questão. D
esde os tempos antigos que chuva representa fertilidade, pureza, esperança, sobrevivência e fecundidade. Assim, é natural o gosto e o positivismo que D.Pedro atribuía à calma queda de água. Neste quarto seríamos água. Uma unidade viva. Envolvidos com o elemento mais básico da nossa vida.
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O Salão Lúdica
Onde jogamos por jogar.
«Muitas vezes, os jogos incomodam-me porque têm um objetivo. Você joga contra perdedores e vencedores, com regras e objetivos. Não temos vida suficiente para encontrar essas palavras cheias de vaidades? E se, simplesmente, jogarmos por jogar? Se não houvesse outros objetivos para esses jogos além de jogar, não estaríamos mais livres?»
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As atividades lúdicas oferecem à alma tanto como um livro, uma aula, ou um espetáculo”. A frase em questão fora proferida por D.Pedro, quando confrontado por um familiar em relação às longas horas despendidas por este a jogar xadrez, assim como a ler sobre o jogo.
verdade é que os jogos sempre fizeram a sua presença sentir na vida do Duque. Desde o já previamente mencionado Xadrez, aos jogos de cartas, às corridas de cavalo, ao golfe, e até ao boxe, que se tornara célebre na década de 1730. O
1º Duque de Lafões refletia sobre a importância do lazer, no quotidiano de um ser humano. Apesar de passar uma imensa porção do seu tempo a estimular o seu intelecto, (aprendendo sobre temas novos, viajando, aperfeiçoando as suas técnicas musicas, ou mesmo escrevendo poesia) D.Pedro considerava de igual significância a diversão: “Uma vida sem jogos é como um barco sem vela”.
ssim, teve a ideia de criar um salão inteiramente destinado às atividades de cariz lúdico, dedicando-se até à elaboração de jogos originais: Uma versão alterada da esgrima, com longas penas ao invés do tradicional florete; atos que visavam estimular a força física, como puxar (em conjunto com outros indivíduos) uma imponente pedra, através de um pedaço de corda; e até altos baloiços, cujos movimentos pendulares nos transportariam para um estado de relaxamento e ligeira adrenalina. Neste compartimento do vasto Palácio do grilo, a seriedade e o trabalho seriam impedidos de entrar.
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O Salão De Esforços
Onde nós suamos.
«Gostaria de desenvolver máquinas para aperfeiçoar a minha musculatura e manter o meu corpo, que também podem ser objetos de admiração. Se eu tiver que correr numa esteira, deixe-a animar uma paisagem. Se eu tiver que carregar pesos, esses são livros.»
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aracterística renascentista, o antropomorfismo teve extremo relevo na evolução humana. Desde a precisão das linhas nas representações do corpo do homem na escultura grega, aos suaves contornos do corpo da mulher na pintura italiana, a centralidade do ser humano no mundo da arte revelou-se fulcral.
nossa espécie alimenta-se da apreciação da sua pessoa por terceiros. Orgulho, vaidade, e uma amostra de narcisismo são atributos instintivos de qualquer um de nós. Apesar da definição de corpo ideal ter-se transmutado com o decorrer dos séculos, um corpo bonito e bem cuidado sempre foi motivo de espanto. Segundo o aclamado filósofo grego Sócrates: “Nenhum homem tem o direito de ser amador no que toca ao treino físico. É uma vergonha um homem envelhecer sem observar a beleza e a força que o seu corpo poderia atingir.” N
ão obstante, D.Pedro aprendeu a valorizar a elegância e destreza características de um corpo cuidado. Mesmo que a arte da musculação ainda não estivesse intrínseca na sociedade (contrastando com a atual), o Duque certificou-se que até adoecer, manteve um corpo cuidado, invejável, que evidenciava a sua força de vontade. P
ara tal, nada preferível a ter um salão inteiro dedicado à manutenção do seu físico. Porém, não cessaria de representar o seu lado amante de arte. Os mecanismos desportivos seriam como que peças artísticas, os pesos trocados por livros, e uma excentricidade que só o “Palácio dos Sonhos” poderia alguma vez albergar.
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O Salão Das Escapadelas
Onde escapamos.
«Um sopro leve de música ou sonho, qualquer coisa para nos fazer quase sentir, qualquer coisa para nos impedir de pensar.»
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or vezes, uma escapadela do nosso mundano quotidiano é tudo aquilo que sonhamos. Tão simples...Porém tão inexequível para a maioria. A vida diária repleta de tarefas, responsabilidades, etiqueta, encargos que se revelam fordistas, conjuntura psicológica negativa, e a constante pressa que aprisiona qualquer um no seu reboliço, é estafante emocionalmente. Uma pausa é fulcral. E
vidente e referido anteriormente, D.Pedro, na sua frequente perturbação, tinha tendência a refugiar-se em livros, escritos seus, jogos lúdicos, música. Mas porquê escapar-se para outras atividades, tarefas estas que também, por vezes, lhe infligiam alguma irritação? Porque não elaborar um salão cujo único propósito...Era não ter nenhum propósito?
ssim nasceu o salão em questão. Com os seus imponentes sinos de bronze, a divisão parecia vinda de outro universo. Remetendo, repetidamente, para o mundo etéreo, onírico, o 1º Duque de Lafões consegue assim, escapar dia após dia da triste realidade onde vivia. “Entre as gotas de chuva é onde a alma humana se esconde; evadindo-se da realidade por um breve instante.” (Jay long)
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O Salão Do Bonze
Onde meditamos.
«Costumo contentar-me em sentir o hálito do nariz nos lábios e sentir uma espécie de plenitude. Foi-me dito que os monges do extremo norte da Índia e dos limites da China usavam essa mesma técnica para orar ao deus deles. Não posso, num salão de beleza, entrar nos seus caminhos estranhos?»
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onzes – monges Budistas – adquirem através de treino árduo, invejável disciplina e extrema paciência, um estado de paz interior, de plenitude, e contentamento com a sua vida independentemente do quão negativa é a sua conjuntura, desejável a qualquer ser humano em condições psicológicas regulares. D.Pedro era um conhecido admirador das culturas orientais, sendo que de acordo com os seus cadernos de viagem, países como a Índia, ou a China foram os seus eleitos. P
reviamente descrita, a sua turbulenta mente dificultava o seu quotidiano e implicava que o Duque vivesse num estado frequente de angústia. Depois da sua visita à Índia em 1753, o 1º Duque de Lafões deu início a um processo de aprendizagem da arte de meditar. Mimicando os monges budistas, ou os egrégios monges Shaolin, D.Pedro rapidamente decifrou o complicado alcance da paz de espírito. U
m salão consagrado à meditação, onde não existe lugar para agitação, onde a decoração é simples. O materialismo não entra, as preocupações ficam à entrada. Nesta divisão, perdemo-nos num oceano de nada. A aceitação de que a nossa mente deverá apenas estar ocupada a não estar ocupada de nada.
meditação serviria assim, para o Nobre, como um portal para uma vida mais feliz. Um meio pacifista de libertar as suas frustrações diárias. Uma maneira de ser granjeado com uma onda de criatividade, que redirecionaria para uma das inúmeras atividades que o Duque efetuava.
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O Salão Das Sombras
Onde as formas não têm mais corpo.
«Gosto de miragens, visões, fantasias ... que jogo é mais súbtil do que projetar nas paredes figuras sem corpo do Palácio do Grilo, cujas sombras projetadas nas paredes atestariam a sua presença? Esta sala de estar será preenchida por esses fantasmas felizes.»
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sombra trava um contraste com o mundo da luz, revelando-se um portal para um universo onírico, irreal, dominado pela imaginação. Sem luz tudo se desintegra, o nada faz com que a sua presença seja sentida. O
nosso conhecimento sobre um determinado objeto rapidamente desaparece com a chegada da sombra. Esta revela apenas uns meros detalhes sobre o que queremos ver, colocando a nosso cargo a interpretação, e imaginação do que esta contém. A escuridão poderá, em termos simbolistas, representar uma ignorância divina que nos protege do que espreita para lá da mesma. Ao longo da evolução da nossa espécie, a luz granjeou o ser humano com um sentimento (talvez falso) de segurança, e na arte, e cultura comum, as sombras eram características do assustador, negativo, e do desconhecido. P
orém, enquanto nas manifestações artísticas o escuro é conotado negativamente, existe uma aparente atração pelo seu mistério, uma inegável beleza e elegância nos ténues contornos de uma sombra. Uma das aias de D.Pedro, quando este não passava de uma inocente criança, introduziu-lhe os espetáculos de sombras. Sendo um meio de entreter os seus filhos de forma gratuita, a aia desenvolveu uma particular aptidão para elaborar complexos e divertidos jogos de luz. C
om a elaboração deste salão, o Duque de Lafões visava obter algum do entretinimento que tanto o fez feliz ao longo do seu crescimento, assim como homenagear a dedicada aia que tanto trabalho teve no seu acompanhamento, e cujo Nobre nutria tremenda admiração e respeito.
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O Salão Dos Calhaus
Onde adicionamos a sua parte.
«Neste palácio, terei concebido seguindo os meus próprios sonhos, afastando-me do amor pela rainha Maria e de um império como nenhum outro. No entanto, eu sonharia que todos pudessem acrescentar um pouco de si aos meus sonhos, como um pequeno objeto deixado para trás, para mim, neste lugar. Depois, esses objetos testemunharão a minha hospitalidade. Os meus sonhos, eu diria, são grandes o suficiente para recebê-lo, seja quem for.»
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om a sua brilhante mente e imponente inteligência, a dificuldade de D.Pedro relacionar-se naturalmente com outras pessoas fazia-se sentir no seu quotidiano. Progressivamente, isto resultou numa solidão eternamente crescente que lentamente afastava o Nobre de uma significativa porção de interação social. S
e ao menos os seus sonhos pudessem ser observados por outrem, retirados do seu cérebro e colocados à frente de outros indivíduos, talvez assim estes o aceitassem melhor como par e se sentissem mais semelhantes com o Duque.
través de contemplarem os supracitados sonhos, as pessoas deveriam de ser capazes, segundo D.Pedro, de acrescentar um detalhe, mudar um momento, adicionar uma palavra, ou ainda um objeto. Deste modo, teríamos uma peça de teatro noctívaga onde todos colaboram. Uma coletiva criação que aproximaria o Duque de Lafões daqueles que o rodeiam.
criação do Salão Dos Calhaus revelou-se a forma mais simples de sentir alguma intervenção de terceiros na sua vida. Estes deixariam uma palavra, ou uma determinada oferenda, que refletisse a sua presença no palácio. Recolhendo a sua coleção de souvenirs inversas, a sua hospitalidade estaria disposta para todos a avistarem. Esperançosamente, esta qualidade iria demonstrar a acessibilidade do viajado Nobre.
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